Enzo

(2025) ‧ 1h42

12.03.2026

Entre privilégios e descobertas, o delicado despertar de “Enzo”

Prepare-se para uma obra carregada de emoção e significado histórico para o cinema europeu.

Este não é um filme de ação ou uma comédia leve, mas sim um drama de amadurecimento (coming-of-age) francês que serviu como o “canto do cisne” do falecido diretor Laurent Cantet, finalizado por seu grande amigo e colaborador Robin Campillo (120 Batimentos por Minuto).

O filme Enzo se passa no ensolarado sul da França e foca em Enzo (interpretado pelo estreante Eloy Pohu), um jovem de 16 anos de uma família burguesa e privilegiada. Em um ato de rebeldia contra o futuro acadêmico e confortável que seus pais planejaram, ele decide se tornar aprendiz de pedreiro.

No canteiro de obras, Enzo conhece Vlad (Maksym Slivinskyi), um colega ucraniano cujo futuro é incerto devido à guerra em seu país. A relação entre os dois, que transita entre a amizade profunda e o desejo, faz Enzo confrontar questões de classe, masculinidade e o que realmente significa ter coragem em um mundo em crise.

A direção de Campillo honra perfeitamente o estilo humanista de Cantet. O filme é tátil: você sente o sol, a poeira do cimento e o suor do trabalho braçal. É uma obra que valoriza o esforço físico como forma de autodescoberta.

Existem algumas semelhanças estéticas com o filme de Luca Guadagnino: o verão europeu, a descoberta da sexualidade e o despertar intelectual. No entanto, Enzo é mais “pé no chão” e politizado, focando intensamente na barreira invisível entre a elite e a classe operária. Ele consegue transmitir a confusão interna de um adolescente sem precisar de muitos diálogos.

A luz do sul da França é capturada de forma poética por Jeanne Lapoirie.

Pierfrancesco Favino no papel do pai, entrega uma performance contida e empática que evita o clichê do vilão autoritário.

Em suma, Enzo é um filme essencial para quem gosta de cinema de autor e histórias que exploram a alma humana através do silêncio e da observação. É um tributo emocionante a Laurent Cantet e uma prova de que Robin Campillo continua sendo um dos diretores mais sensíveis da atualidade.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Ricardo Feldmann Dotto

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