Lispectorante é um filme que parece querer transbordar de significados, mas acaba se afogando em sua própria estética ensimesmada. A proposta de acompanhar uma artista plástica em crise, que busca na antiga casa de Clarice Lispector uma espécie de reconexão com a vida, soa promissora no papel. No entanto, a execução tropeça em afetações que sabotam qualquer tentativa mais sincera de mergulho emocional ou existencial.
Marcélia Cartaxo, atriz de trajetória marcante no cinema nacional, encarna Glória Hartman com uma entrega que, infelizmente, o roteiro não acompanha. Sua personagem é uma colagem de clichês: a artista sensível, a mulher que sofre em silêncio, a figura solitária que busca sentido nas pequenas coisas. Nada disso seria um problema se o filme soubesse o que fazer com essas imagens — mas Lispectorante parece se contentar com a sugestão de profundidade, sem jamais realmente cavar fundo.

O que era para ser um espaço de descoberta acaba se tornando um desfile de frases de efeito e gestos vazios. A tentativa de capturar o espírito clariceano — introspectivo, fragmentado, lírico — se reduz a um conjunto de truques visuais e narrações que soam artificiais. A antiga casa da escritora vira um símbolo fácil demais, um altar à inspiração, mas sem o mínimo de desconforto ou contradição que a própria Clarice sempre soube manipular com maestria.
Ainda que a fotografia consiga pontuar alguns momentos de beleza na paisagem recifense, essa construção do “senso de lugar” não compensa a superficialidade com que os temas são abordados. A solidão, o envelhecimento, o luto, a reinvenção — tudo isso é mencionado, ilustrado até, mas nada é realmente vivido em cena. Falta corpo, falta conflito, falta cinema. Falta, sobretudo, o incômodo que costuma nascer quando a arte se propõe a confrontar algo verdadeiro.
O interesse romântico vivido por um artesão de frases prontas é um ponto particularmente problemático. A figura, que talvez pretendesse ser uma espécie de guru poético ou representação da liberdade criativa, soa apenas como um estereótipo hippie deslocado. É difícil acreditar que esse personagem possa catalisar qualquer transformação relevante na protagonista — e mais difícil ainda é suportar sua presença sem revirar os olhos.

Não faltam tentativas de criar momentos “mágicos” ou oníricos, mas são sempre artificiais e pouco inspirados. As inserções visuais que pretendem evocar o fantástico apenas reiteram a fragilidade do projeto: são efeitos sem função dramática, devaneios sem peso simbólico. A presença de Grace Passô — desperdiçada em um papel que não sabe para onde vai — é outro sintoma de um filme que parece ter ideias, mas não caminhos.
Lispectorante quer ser homenagem, mas acaba soando mais como paródia involuntária. Ao invés de provocar epifanias, entrega cafonices; no lugar de uma jornada íntima, nos dá um passeio ilustrado pelas vitrines da sensibilidade fake. Clarice merecia mais, e Marcélia também. O espectador, então, nem se fala.



