O Homem Errado

(1956) ‧ 1h45

Quando a inocência não basta

Felipe Fornari

O Homem Errado leva uma das obsessões mais recorrentes de Alfred Hitchcock a um território excepcionalmente sombrio. Christopher “Manny” Balestrero é um músico que leva uma vida modesta em Nova York ao lado da esposa Rose e dos filhos. Quando precisa conseguir dinheiro para pagar o tratamento dentário dela, procura a companhia responsável por sua apólice de seguro e acaba reconhecido por funcionárias como o homem que havia assaltado o estabelecimento. O que começa como um equívoco transforma-se rapidamente em acusação, e Hitchcock elimina quase todo o humor que costumava acompanhar seus falsos culpados para mostrar como uma vida comum pode ser desmontada simplesmente porque algumas pessoas acreditaram reconhecer um rosto.

Henry Fonda é perfeito para essa abordagem. Sua imagem naturalmente íntegra torna ainda mais perturbador acompanhar Manny sendo tratado como criminoso, mas o ator evita transformar o personagem em mártir melodramático. Ele reage com perplexidade, medo e uma espécie de submissão diante das autoridades, como alguém convencido de que a verdade inevitavelmente corrigirá o erro. A sequência da prisão destrói gradualmente essa confiança. Interrogatório, reconhecimento, teste de caligrafia, impressões digitais, fotografia e cela são apresentados quase como etapas burocráticas de uma linha de produção. Ninguém precisa agir de maneira particularmente cruel porque o próprio funcionamento impessoal do sistema é suficiente para esmagá-lo.

Hitchcock reforça essa sensação através de uma abordagem próxima do documental. Filmando em várias locações relacionadas ao caso verdadeiro que inspirou a história, acompanha procedimentos policiais e jurídicos com uma atenção aos detalhes que deliberadamente transforma a rotina em fonte de ansiedade. Um simples erro ortográfico cometido por Manny durante o teste de caligrafia ganha peso assustador porque coincide com aquele presente no bilhete do verdadeiro assaltante. Testemunhas demonstram certeza ao identificá-lo, e cada coincidência parece acrescentar outra camada a uma culpa inexistente. Em vez das conspirações extraordinárias de O Homem Que Sabia Demais, o terror aqui nasce de mecanismos perfeitamente cotidianos.

Ainda mais devastadora é a transformação de Rose. Vera Miles começa interpretando uma esposa preocupada com as dificuldades financeiras da família, mas a acusação contra Manny desperta nela uma culpa que progressivamente se torna insuportável. Enquanto o marido concentra suas forças em provar a inocência, Rose passa a acreditar que os problemas foram provocados por ela e que qualquer tentativa de esperança terminará em nova frustração. Hitchcock acompanha sua deterioração psicológica sem oferecer alívio, fazendo com que o verdadeiro dano causado pelo erro judicial ultrapasse completamente aquilo que um veredito poderia reparar. Mesmo que Manny seja absolvido, alguma coisa dentro daquela família já terá sido destruída.

A fotografia em preto e branco intensifica essa atmosfera opressiva. Grades, corredores, sombras e espaços burocráticos parecem gradualmente aprisionar Manny antes mesmo de qualquer condenação, enquanto alguns enquadramentos aproximam sua experiência de um pesadelo. Há uma dimensão quase kafkiana na facilidade com que sua identidade deixa de pertencer a ele: pouco importa quem Manny sabe que é quando policiais, testemunhas e documentos começam a produzir outra versão de sua existência. Bernard Herrmann acompanha essa jornada com uma música incomumente contida, evitando transformar o sofrimento em espetáculo e preservando a austeridade que diferencia o filme de quase tudo que Hitchcock havia realizado até então.

A eventual descoberta do verdadeiro criminoso poderia representar uma libertação, mas Hitchcock deliberadamente recusa uma satisfação completa. A coincidência que colocou Manny naquela situação é outra coincidência que acaba retirando-o dela, expondo quanto sua vida esteve submetida ao acaso. O falso culpado, tão frequentemente transformado pelo diretor em protagonista de aventuras movimentadas como 39 Degraus, torna-se aqui alguém incapaz de fugir porque não existe um vilão específico contra quem lutar.

O Homem Errado é um dos trabalhos mais austeros e desconfortáveis de Hitchcock, justamente porque quase nada nele parece pertencer ao universo seguro da ficção. A ausência de humor, o realismo dos procedimentos e a contenção de Fonda fazem com que cada pequena coincidência pareça mais ameaçadora do que uma grande conspiração. O filme perde alguma força quando determinadas etapas processuais prolongam excessivamente essa mesma sensação de impotência, mas encontra na desintegração de Rose uma consequência emocional extraordinariamente amarga. Hitchcock sempre soube que ser inocente não impedia ninguém de parecer culpado; aqui, vai além e sugere algo muito mais assustador: às vezes, basta estar no lugar errado, diante das pessoas erradas, com o rosto errado.

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