Os Roses: Até que a Morte os Separe é um banquete ácido sobre casamento, ambição e ressentimento. A princípio, Ivy (Olivia Colman) e Theo (Benedict Cumberbatch) parecem formar um casal perfeito, daqueles de comercial de margarina: ela é uma chef de sucesso, ele um arquiteto renomado, e juntos criaram uma família aparentemente impecável. Mas basta um tropeço para que a fachada desmorone e o que surge no lugar é um espetáculo de vaidade, mágoa e guerra.
O filme é um remake do clássico dos anos 1980 inspirado no romance de Warren Adler, mas encontra frescor ao atualizar o olhar para as pressões contemporâneas. O roteiro de Tony McNamara, conhecido por trabalhos como A Favorita e Pobres Criaturas, aposta na comédia ácida como lente para expor como amor e poder podem se confundir em um casamento. O diretor Jay Roach, que já explorou com maestria dinâmicas familiares em Entrando Numa Fria, dá ao caos conjugal uma roupagem que equilibra um riso desconfortável e com uma tragédia iminente.

Grande parte do êxito está, claro, no elenco. Olivia Colman prova mais uma vez que é uma força da natureza, dominando cada cena com um humor afiado que beira o cruel. Já Benedict Cumberbatch, pouco lembrado por seu timing cômico, surpreende ao mergulhar no papel de um homem que oscila entre a insegurança e o sarcasmo. Juntos, eles criam uma dinâmica irresistível, onde cada olhar e cada silêncio são carregados de ironia e ressentimento.
Narrativamente, o longa é inteligente ao começar pelo fim: o terapeuta do casal sentencia que não há salvação para o casamento. A partir daí, acompanhamos um flashback que começa como uma comédia romântica, mostrando o encontro improvável entre Ivy e Theo, e segue para a escalada de tensões que culmina na implosão. Essa estrutura permite ao público rir com eles no início, apenas para rir deles – e se chocar – no desenrolar da história.
Outro ponto alto está nos detalhes que revelam o quanto a relação deles sempre foi construída sobre farpas afiadas. As piadas internas, como batizar a inteligência artificial da casa de Hal (em referência a 2001: Uma Odisseia no Espaço), dão pistas de que a ironia fazia parte do DNA do casal desde o início. Quando o equilíbrio entre as carreiras desmorona – a dela em ascensão meteórica, a dele em colapso –, o sarcasmo antes cúmplice se transforma em munição cruel.

É verdade que a narrativa flerta perigosamente com a ideia de que Ivy seria uma mulher “ambiciosa demais” para manter a família unida, mas o roteiro escapa do clichê ao reconhecer que tanto ela quanto Theo são reféns de expectativas externas e do próprio orgulho. Não há vilões aqui, apenas pessoas que se amaram intensamente e não souberam lidar com a erosão da vida compartilhada. Essa nuance evita que o filme caia em moralismos.
No fim, Os Roses: Até que a Morte os Separe é uma comédia amarga, tão hilária quanto desconfortável. É sobre duas pessoas que constroem impérios, mas deixam as próprias fundações afetivas em ruínas. Com interpretações afiadas e direção precisa, o longa entrega uma reflexão dolorosa e, ao mesmo tempo, irresistivelmente engraçada sobre o que acontece quando amor e orgulho se tornam armas dentro de casa.







