Pele de Vidro

(2023) ‧ 1h30

12.03.2026

Arquitetura em ruínas: memória, desigualdade e a queda da utopia modernista

O documentário Pele de Vidro aborda uma reflexão sensível sobre memória, arquitetura e desigualdade social a partir da trajetória do edifício Wilton Paes de Almeida, conhecido como “Pele de Vidro” localizado no centro de São Paulo. Projetado pelo arquiteto modernista Roger Zmekhol e inaugurado em 1968, o edifício surgiu em um momento marcado pelo entusiasmo desenvolvimentista e pelas promessas de modernização que atravessavam o Brasil na década de 1960. Sua arquitetura, composta quase inteiramente por vidro e com uma escadaria icônica, representava a ideia de transparência e progresso, em sintonia com o otimismo em torno de um futuro promissor que se consolidava após a construção de Brasília.

Contudo, essa promessa modernista revela-se, ao longo do documentário, tão frágil quanto o próprio material que reveste a construção. O golpe militar e o período da ditadura introduzem uma ruptura. O edifício passa a abrigar a sede da Polícia Federal, em uma época marcada pela repressão política e pelo obscurecimento das liberdades democráticas. Desse modo, evidencia como a arquitetura também materializa disputas políticas, também reflete as contradições da história brasileira.

Décadas depois, outra mudança significativa redefine o destino do prédio: abandonado e sem função institucional, ele passa a ser ocupado por movimentos de moradia. Em um país marcado por profundas desigualdades e por um déficit habitacional expressivo, o edifício torna-se abrigo para centenas de famílias sem-teto. O filme observa o movimento de ocupação com atenção e complexidade, e a realidade daqueles que lutam diariamente pelo direito à moradia.

Nesse processo, o documentário também assume uma dimensão pessoal e autobiográfica. Dirigido por Denise Zmekhol, filha do arquiteto responsável pelo projeto, o filme tem sua dimensão terapêutica, como um diálogo tardio e de reconciliação com a figura paterna. Fotografias, lembranças familiares e documentos ajudam a reconstruir o legado arquitetônico de Roger Zmekhol e o acertar de contas com a filha.

Ao mesmo tempo, à medida que se aproxima dos moradores do edifício, Denise transforma seu olhar. Torna-se um exercício de escuta e de aproximação com histórias marcadas pela precariedade, pela exclusão e pela resistência. O encontro com as famílias que ocupavam o prédio revela trajetórias individuais invisibilizadas na dinâmica urbana e desloca o foco para a realidade concreta daqueles que passaram a habitar o espaço abandonado.

Durante as filmagens a narrativa sofre uma reviravolta dramática. Em 2018, um incêndio atinge o prédio ocupado e provoca seu desabamento, deixando mortos e desaparecidos. A tragédia transforma o edifício em centro de um intenso debate público sobre políticas habitacionais e direito à cidade, o que amplia o alcance do documentário, o tornando um retrato das desigualdades sociais do Brasil contemporâneo.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Renata Barbosa

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