O filme Mambembe, dirigido por Fabio Meira, apresenta uma proposta diferente, não segue uma estrutura convencional. Afinal, trata-se de um documentário ou de uma ficção? O diretor explora justamente esses limites, ousa e transforma o fracasso de uma produção interrompida em matéria-prima para uma nova proposta. O resultado é um filme que discute o próprio fazer cinematográfico. O universo do circo da “velha guarda” é o pano de fundo. Uma realidade de dificuldades e precariedade, mas de também de resistência, de pertencimento e arte.
A produção teve início em 2010, quando Fabio Meira viajou ao interior de Pernambuco em busca de mulheres circenses que pudessem integrar seu projeto. Entretanto, dificuldades financeiras e problemas de produção interromperam as filmagens durante mais de uma década. Quando o diretor conseguiu retomar o filme, em 2018, percebeu que a obra imaginada já não poderia existir da mesma forma. O tempo havia transformado os personagens, o país e o próprio olhar do cineasta sobre seu trabalho.

Essa mudança faz com que Mambembe abandone parcialmente sua proposta inicial de ficção para assumir um formato híbrido. Segue apenas fragmentos do roteiro original. As artistas circenses Índia Morena e Madona Show, participam nos dois momentos. Suas histórias de vida, suas memórias e suas reações diante da retomada do projeto tornam-se tão importantes quanto a ficção proposta inicialmente.
Ao revisitar as gravações iniciadas em 2010 e os reencontros, revela mulheres que carregam em suas trajetórias a tradição mambembe de viver na estrada, montando e desmontando lonas, reinventando espetáculos e sustentando a arte circense. Explora a dimensão humana dessas experiências, valorizando as memórias, os afetos e os vínculos construídos dentro do circo, entre apresentações, viagens e reencontros. Valoriza as artistas circenses e de seus modos de vida. Identidades construídas pela arte e pela resistência, mesmo em meio a dureza da vida itinerante no circo.
A proposta mais ousada é essa relação entre realidade e encenação. Em vários momentos, não fica claro se estão atuando ou não. Ficção e realidade se misturam o tempo todo. Claquetes aparecem em cena, diálogos são repetidos, atores questionam o diretor e entrevistas convivem com passagens dramatizadas.

As vezes ficamos com a impressão de que a proposta está dispersa. Não se sabe se a ideia é retomar o roteiro original, da ficção interrompida. Ou seja, o fio condutor é essa sensação de condição inacabada, em busca de identidade. E desse aparente “fracasso” do projeto inicial, dá o ponto alto da produção: as próprias mudanças de rota e o foco nos reencontros depois dos anos de interrupção, que resulta nesse documentário com ficção, sobre sua própria impossibilidade.
Mambembe se destaca por essa coragem de transformar dificuldades de produção em uma obra sobre o fazer cinematográfica. Mesmo irregular em alguns aspectos, sua originalidade e honestidade fazem dele uma experiência significativa dentro do cinema brasileiro contemporâneo. Fecho essa resenha com um poema recitado lindamente por uma de suas protagonistas, a artista circense Índia Morena:
“No Circo, como na vida: palhaços, trapezistas, equilibristas, bailarinas e mágicos do circo riem, vibram e amam. Às vezes, choram e se desesperam. Eternos personagens. Mesmo nos dias mais cinzentos, quando tudo parece sem esperança, quando as lantejoulas perdem o brilho e a gargalhada não tem eco, somos obrigados a vestir nossas máscaras e fantasias para mais um espetáculo. A vida dos Saltimbancos é instável e cheia de conflitos. Muitos amigos já morreram no trapézio ou no globo da morte, mas o risco faz parte do jogo. E como, em todo jogo, às vezes perde, às vezes ganha, eles continuam apostando em mais espetáculos circenses. E, quando menos se espera, surge entre edifícios das superavenidas, mais uma empanada de Circo. Circo, para as crianças, é a concretização de um sonho. Para um número reduzido de adultos, é nostalgia do tempo perdido. E, para os homens sérios, é um trambolho no meio da rua desprovido de qualquer significado. Mas, para o artista, é a única razão de existir. Desta maneira, como em um passe de mágica, dispensando o cenário, todos estão prontos para gritar”.







