Nausicaä do Vale do Vento

(1984) ‧ 1h57

11.03.1984

Entre a guerra e a natureza: A jornada de “Nausicaä do Vale do Vento”

Hayao Miyazaki sempre foi mestre em criar mundos complexos, povoados por personagens que agem movidos por convicções profundas. Em Nausicaä do Vale do Vento, talvez mais do que em qualquer outro de seus trabalhos, ele constrói um universo pós-apocalíptico que é ao mesmo tempo hostil e fascinante, explorando a relação frágil e conflituosa entre a humanidade e a natureza. A história, adaptada do próprio mangá do diretor, combina influências de obras como O Senhor dos Anéis e Duna, mas mantém uma identidade muito própria.

Logo nos primeiros minutos, somos imersos nesse cenário devastado pelo “Mar da Corrupção”, onde plantas tóxicas e insetos gigantes se tornaram parte inevitável da paisagem. É nesse ambiente que conhecemos a protagonista, a princesa Nausicaä, que sobrevoa as florestas em sua asa-delta e observa com curiosidade e respeito o que muitos veem apenas como ameaça. Essa postura, desde o início, a coloca como mediadora entre mundos opostos — o dos humanos, cada vez mais acuados, e o da própria natureza, que apenas reage às ações passadas da humanidade.

A grande força de Nausicaä do Vale do Vento está na personagem-título. Jovem e corajosa, ela não se deixa levar pelo ódio ou pelo medo. Ao contrário, busca compreender os mecanismos que mantêm a floresta e suas criaturas vivas, acreditando que coexistir é possível. Miyazaki constrói nela um exemplo de liderança que foge ao padrão guerreiro e violento: seu poder está no conhecimento e na empatia, não na força bruta.

No entanto, o Vale do Vento não está isolado do restante do mundo. Conflitos políticos envolvendo reinos vizinhos, como Tolmekia e Pejite, logo invadem a narrativa e testam os limites da diplomacia. Quando uma nave tolmekiana cai no vale carregando a princesa de Pejite como prisioneira, o equilíbrio precário começa a ruir. E, enquanto os reinos se digladiam, a ameaça de um ataque em massa dos Ohmu — criaturas gigantescas do Mar da Corrupção — se torna cada vez mais real.

Apesar da densidade de eventos e do ritmo por vezes intenso, Miyazaki encontra espaço para momentos de quietude e poesia visual. Cenas como Nausicaä interagindo com um esquilo-raposa ou sendo conduzida por um Ohmu ao reencontro com lembranças da infância revelam a essência emocional do filme. A trilha sonora de Joe Hisaishi amplifica essas passagens, reforçando a dualidade entre a tensão da guerra e a serenidade do contato com a natureza.

O filme também antecipa muitos dos temas recorrentes na obra posterior do diretor. O protagonismo feminino forte e independente, como visto depois em O Serviço de Entregas da Kiki e O Castelo Animado; a reflexão ambiental de Princesa Mononoke e Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar; e a abordagem moralmente ambígua de seus antagonistas, como Yubaba em A Viagem de Chihiro. Aqui, personagens como Kushana não são apenas vilões, mas figuras moldadas por interesses e traumas, que podem revelar outra face quando o contexto muda.

Visualmente, Nausicaä do Vale do Vento é impressionante, especialmente considerando sua estreia em 1984. A riqueza dos cenários e a atenção aos detalhes criam uma experiência que resiste ao tempo. Mesmo com uma trama repleta de elementos políticos e ambientais, a mensagem central se mantém clara: compreender e respeitar o mundo à nossa volta é tão vital quanto defender o nosso próprio povo. No fim, é essa fusão de aventura, beleza e consciência que torna o filme não apenas uma obra marcante, mas um alicerce da identidade criativa que Miyazaki consolidaria em suas obras seguintes.

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AUTOR

Felipe Fornari

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