Mank

(2020) ‧ 2h11

30.03.2021

Entre o gênio e o fantasma: a autoria em disputa no coração de Hollywood

Dirigido por David Fincher, Mank revisita a gênese de Cidadão Kane a partir da figura de Herman J. Mankiewicz, o roteirista que, entre sarcasmos etílicos e lampejos de genialidade, lutou para ver seu nome associado ao que se tornaria um dos maiores filmes de todos os tempos. Mais do que uma cinebiografia tradicional, o longa se constrói como uma reflexão sobre memória, autoria e a própria fabricação dos mitos hollywoodianos.

Filmado em um elegante preto e branco que emula o estilo clássico dos anos 1930 e 1940, o filme mergulha na atmosfera da era de ouro dos estúdios com um fascínio quase hipnótico. A fotografia minuciosa e o design de produção recriam não apenas um período histórico, mas um imaginário cinematográfico específico, fazendo com que o espectador sinta estar assistindo a uma obra saída diretamente daquele contexto. Essa escolha estética, longe de ser mero capricho formal, reforça a ideia de que estamos diante de uma reconstrução subjetiva, um sonho sobre o passado tanto quanto um retrato dele.

No centro de tudo está a atuação magistral de Gary Oldman, que compõe um Mankiewicz ácido, brilhante e profundamente ferido. Seu humor cortante e sua postura cínica escondem uma fragilidade emocional que humaniza o personagem e o distancia da caricatura do roteirista alcoólatra. Ao redor dele, o elenco de apoio contribui para delinear um mosaico de relações complexas, especialmente na presença de Marion Davies e William Randolph Hearst, figuras que orbitam a narrativa como símbolos do poder e das contradições da indústria.

O roteiro, escrito por Jack Fincher, adota uma estrutura fragmentada que alterna o processo de escrita de Cidadão Kane com episódios do passado de Mankiewicz, evidenciando como suas experiências pessoais e políticas influenciaram diretamente a concepção da obra. Nesse movimento, o filme não busca uma verdade histórica definitiva, mas sim explorar as ambiguidades da autoria e a disputa de egos que cercaram a criação do clássico, questionando até que ponto o reconhecimento artístico é moldado por narrativas posteriores.

Outro aspecto fundamental é a crítica ao funcionamento de Hollywood como máquina de propaganda e manipulação. Ao abordar episódios como a campanha contra Upton Sinclair nas eleições da Califórnia de 1934, o filme sugere que o cinema sempre esteve entrelaçado a interesses políticos e econômicos, revelando o desencanto de Mankiewicz diante das distorções promovidas pelos próprios estúdios. Esse olhar reforça a dimensão política da obra, ampliando seu alcance para além da mera reconstituição histórica.

Ainda que romantize certos episódios e fabule sobre a escrita do roteiro em isolamento médico, Mank utiliza essas licenças dramáticas para enfatizar a sensação de autoria solitária e a figura do escritor como alguém à margem do sistema que o consome. A ideia de um gênio subestimado, ofuscado por um diretor mais jovem e carismático, ecoa como uma tragédia silenciosa, reforçando a melancolia que atravessa toda a narrativa.

No fim, o filme se revela menos como um retrato fiel de Herman J. Mankiewicz e mais como uma meditação sobre a própria construção de lendas no cinema. Entre a reverência nostálgica e a exposição das engrenagens corruptas de Hollywood, Mank transforma a disputa de créditos de Cidadão Kane em um drama humano sobre reconhecimento, vaidade e memória, convidando o espectador a refletir sobre quem realmente escreve a história — e quem fica condenado a viver nas notas de rodapé.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTROS INDICADOS

Triângulo da Tristeza

Triângulo da Tristeza

Triângulo da Tristeza oferece uma sátira implacável sobre o mundo dos ricos e a superficialidade de suas vidas, conduzida com a precisão de um bisturi pelo diretor sueco Ruben Östlund. Dividido em três capítulos, o filme traça a trajetória de Carl (Harris Dickinson) e...

Meu Pai

Meu Pai

Meu Pai está longe de ser o primeiro drama a abordar a demência. Só nessa temporada pré-Oscar, nos EUA, foram lançados Supernova e Falling (que tem roteiro, direção e é estrelado por Viggo Mortensen, o Aragorn, de O Senhor dos Anéis) abordando o tema. Mas o longa em...

Aurora

Aurora

Aurora é uma obra que atravessa o tempo como um delicado e perturbador estudo sobre a fragilidade dos sentimentos humanos. A trama simples, um homem seduzido pela ideia de matar a própria esposa, se desdobra em uma experiência cinematográfica de rara intensidade...