Uma narrativa densa e perturbadora que insiste em não entregar respostas fáceis: é isso que encontramos desde as primeiras cenas de Stella: Vítima e Culpada.

Stella Goldschlag (Paula Beer) é uma jovem judia que sonha com palcos, aplausos, e jazz. Enquanto ela e os amigos ensaiam para apresentações que possam lhes trazer fama e uma carreira consolidada, a Alemanha que os cerca se transforma, dia após dia, com a ascensão do regime nazista. Mas Stella escolhe se dissociar do horror, pelo menos até onde é possível. Quando a realidade se impõe de forma brutal, ela começa a fazer escolhas que a colocam num terreno onde não há nem inocência, nem culpa absolutas.
Stella não tem medo de se mover em zonas cinzentas. A personagem-título é tanto vítima quanto cúmplice, e o roteiro nunca tenta aliviar nenhum dos lados. Em vez disso, propõem que o espectador olhe para a complexidade das pessoas em tempos extremos. O que significa “fazer o que for preciso” para sobreviver? Há um limite ético que resiste quando tudo à nossa volta se desfaz?

O filme tem ritmo, recortes visuais marcantes (com um uso de cor e contraste que reflete muito do que está em jogo internamente) e acerta ao mostrar o arco de uma personagem que atravessa a ascensão, a queda e as marcas do pós-nazismo. Mas talvez o mais potente aqui seja a escolha de contar uma história pouco falada: a dos judeus que colaboraram com a Gestapo. Não para glorificar ou condenar, mas para lembrar que a história é feita de camadas, e decisões que só parecem simples quando vistas de longe.
O filme não entrega um final feliz, mas também não se propõe a ser uma tragédia. O que há é um relato sem respostas, sem julgamentos fáceis, e que escancara uma verdade incômoda: jamais saberemos o que seríamos capazes de fazer, até que estivéssemos na mesma posição. E que bom que não estamos.







