Stranger Things 4

Onde assistir
"Stranger Things 4": O peso do passado e o salto para a maturidade

Ambientada em 1986, a quarta temporada de Stranger Things abraça de vez sua ambição. Se antes a série equilibrava nostalgia e aventura com uma leveza quase ingênua, agora assume proporções épicas — maiores, mais sombrias e muito mais brutais. A Netflix pode até ter provocado ao anunciar o tamanho “supersized” da temporada, mas é impressionante como cada minuto entregue aqui parece fazer jus ao investimento: visualmente exuberante, emocionalmente mais densa e narrativamente mais ousada.

Logo nos primeiros episódios, fica claro que a atmosfera mudou. A produção expande Hawkins de maneira palpável, transformando cenários comuns — o colégio, o rinque de patinação, as ruas da cidade — em verdadeiros mergulhos no tempo. O cuidado com figurinos, veículos, pequenos objetos e até fachadas dá vida a um 1986 vibrante e decadente, ao mesmo tempo em que a série se aventura por novos destinos como Califórnia, Nevada, Alasca e Rússia. A separação do elenco em múltiplas frentes funciona como motor para essa grandiosidade, criando várias narrativas paralelas que sustentam episódios mais longos sem perder o ritmo.

Mas essa expansão só funciona porque caminha lado a lado com um aprofundamento temático. Stranger Things deixa de ser um suspense juvenil à la Steven Spielberg para se aproximar do horror psicológico de obras como O Exorcista e A Hora do Pesadelo. A nova criatura — grotesca, sádica e de presença constante — marca uma ruptura definitiva com os monstros quase invisíveis das temporadas anteriores. Aqui, o medo é explícito: ossos quebram, olhos são arrancados, e cada aparição tem impacto imediato. A série amadureceu, e espera que seu público tenha amadurecido junto.

Ao mesmo tempo, a temporada enxerga Hawkins como uma comunidade traumatizada, ainda ferida pela destruição causada na batalha do shopping. Essa dor coletiva é espelhada no sofrimento individual dos personagens, já que o vilão da vez transforma traumas pessoais em portas de entrada para o horror. O episódio que acompanha Max — e sua luta silenciosa contra a culpa e a depressão — se destaca como o mais poderoso da série até agora, um equilíbrio de terror, emoção e catarse que prova o quanto a produção pode ser sensível sem deixar de ser assustadora.

Os protagonistas, agora mais velhos, enfrentam novos dilemas além dos terrores sobrenaturais. Relacionamentos à distância, inseguranças sobre o futuro, primeiras decepções amorosas e um sentimento constante de deslocamento marcam essa fase da vida e também do seriado. Se às vezes esses dramas adultos desafiam o elenco jovem, a estrutura fragmentada da narrativa suaviza esses momentos, conduzindo o público com fluidez entre núcleos diferentes.

Nem tudo funciona perfeitamente: o arco de Hopper na Rússia, embora conte com momentos emocionantes, acaba se estendendo além do necessário e arrasta consigo personagens como Joyce e Murray para uma linha narrativa que poderia ser mais enxuta. Por outro lado, novos rostos brilham, especialmente Eddie Munson, um carismático outsider que rouba cenas com facilidade. Mesmo com presenças reduzidas, a essência do grupo permanece viva, especialmente na dupla Dustin e Steve, cuja química continua sendo um dos pilares emocionais e cômicos da série.

No fim, Stranger Things 4 é maior, mais trágica e mais corajosa — uma temporada que amplia o escopo sem perder o coração. É uma obra que encara o amadurecimento de frente, abraçando o horror, o drama e a vulnerabilidade de seus personagens, sem abrir mão do senso de aventura que conquistou o público desde o início. Uma evolução grandiosa que prepara terreno para um desfecho ainda mais ambicioso.

Conheça as temporadas da série

Clique nos pôsteres para ler nossa crítica sobre o título.

STRANGER THINGS
(2016)

STRANGER THINGS 2
(2017)

STRANGER THINGS 3
(2019)

STRANGER THINGS 4
(2022)

STRANGER THINGS 5
(2025)