The Old Guard pode parecer, à primeira vista, apenas mais uma tentativa de franquia no saturado universo dos super-heróis, mas rapidamente se diferencia ao combinar ação frenética com uma melancolia rara em histórias do gênero. Dirigido por Gina Prince-Bythewood e estrelado por Charlize Theron, o filme apresenta uma narrativa que mistura a adrenalina dos tiroteios com questionamentos profundos sobre eternidade, propósito e esgotamento emocional.
No centro da trama está Andy (Theron), líder de um grupo de mercenários imortais que atuam secretamente em conflitos ao longo dos séculos. Ao contrário do que se esperaria, viver para sempre não é apresentado aqui como uma dádiva, mas como um fardo. Andy, em especial, carrega a dor acumulada de milênios de perdas e derrotas morais, cada vez mais descrente de que suas ações estejam fazendo alguma diferença real no mundo.

A chegada de Nile (KiKi Layne), uma jovem fuzileira que descobre também ser imortal, serve como catalisador de mudança para o grupo. A personagem traz não só um novo olhar sobre a existência que compartilham, mas também resgata algo que Andy parecia ter perdido: a capacidade de se conectar. A dinâmica entre as duas impulsiona os momentos mais humanos do filme e acrescenta densidade emocional ao roteiro.
É nesse ponto que The Old Guard brilha. Apesar das muitas cenas de ação – bem coreografadas e cheias de energia –, o filme não esquece seus personagens. A relação romântica entre Joe e Nicky, por exemplo, é um dos destaques: retratada com naturalidade, sinceridade e sem recorrer ao estereótipo ou ao uso simbólico raso. É um raro exemplo de representação LGBTQIA+ que realmente importa dentro de uma narrativa de ação.
Infelizmente, o antagonista vivido por Harry Melling não recebe o mesmo cuidado. Seu CEO ganancioso é uma caricatura de vilões corporativos, pouco ameaçador e previsível. Em contrapartida, o roteiro acerta ao evitar grandes discursos e dar espaço para pequenas trocas, olhares e silêncios que dizem muito mais sobre o peso de viver eternamente do que qualquer cena expositiva.

A direção de Prince-Bythewood se destaca ao encontrar o equilíbrio entre grandiosidade e intimidade, algo que falta a muitas produções do gênero. O filme tem seus tropeços – a trilha sonora exageradamente óbvia em alguns momentos e a pressa em resolver certos dilemas filosóficos – mas compensa com carisma e um frescor que o diferencia.
No fim, The Old Guard é menos sobre superpoderes e mais sobre humanidade. Um respiro bem-vindo em meio à enxurrada de filmes que tratam seus heróis como deuses inatingíveis. Aqui, mesmo a eternidade tem limites – e eles doem.



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