Amor a Toda Prova

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27.08.2011

“Amor a Toda Prova” consegue ter alguns momentos inspirados

Há duas formas saudáveis de se trabalhar com o clichê: fugindo ou andando lado a lado, somando forças sem abrir mão de um distanciamento crítico. “Amor a Toda Prova” consegue se enquadrar na segunda opção em alguns momentos inspirados. Depois de uma briga, o protagonista é deixado sozinho. Começa a chover. Óbvio. No entanto, é ele quem constata: “Que clichê.” Agora, pergunte-se quantas comédias românticas sequer tentaram e talvez você concorde comigo quando digo que a nova produção da Warner tem, no mínimo, um diferencial.

O filme começa estampando o contraponto entre Cal (Steve Carell) e Emily (Juliane Moore), casados há mais de 25 anos. Na hora de fazer o pedido ao garçom, ele, acomodado em seus tênis muito usados, opta por crème brûlée; ela, em seus bem cuidados sapatos, pelo divórcio. Voilà. Ela confessa ter dormido com outro (David Lindhagen, do trabalho. Nada menos que Kevin Bacon) e ele sai de casa, sem os filhos. Nada novo. Ele vai ao bar se lamuriar. Já visto. Lá, ele conhece o tutor, Jacob (Ryan Gosling), um especialista em levar mulheres para cama, que se compadece e o ajuda a mudar de vida/guarda-roupa. E é isso? É, mas não só isso.

Dan Fogelman não se limita à crise de meia-idade masculina e, junto à história de Emily e Cal, acompanhamos as de mais quatro personagens, que, como eles, tem grande empatia com o público: Robbie (Jonah Bobo), o filho apaixonado pela babá, Jessica (Analeigh Tipton), a babá apaixonada por Cal, Hannah (Emma Stone), a advogada recém-formada e ingênua, que, como não poderia deixar de ser, tem uma melhor amiga que a incentiva muito a deixar de ser assim, e Jacob, a quem Hannah se volta por sexo após uma decepção e quem ela acaba tirando de “uma vida vazia de promiscuidade”, estabelecendo todos os links. Dinâmica instituída, o problema derivado de tantos relacionamentos a tratar foi o esquecimento de que o núcleo narrativo principal continuou a ser só um. Muito poderia ter sido cortado.

Enfim, com um roteiro não enxuto, mas inteligente, em mãos, Glenn Ficarra e John Requa se divertem na direção e fazem o espectador se divertir também. Destaque aqui para a sucessão de planos da cena no bar em que Cal grita, várias vezes, que é “corno” (cuckold) e que foi corneado por David Lindhagen e para a recriação de um dos passos da célebre dança final de Dirty Dancing, com Hannah e Jacob, que funciona não só como homenagem. Falando em de The Time of My Life, a trilha sonora também está digna de nota e Grizzly Bear, com tudo ultimamente.

Para completar, o elenco está afiadíssimo. Steve Carel em mais do mesmo sim, mas, arrisco-me a dizer, como todo grande comediante sucessor de Jim Carrey (prenúncio em “Todo Poderoso 2 – A Volta do Todo poderoso”), Juliane Moore comprova sua habilidade para o cômico, etc. A surpresa é Analeigh Tipton e seu incomum (o físico incluído). A atriz brilha em cena e com certeza a veremos de novo em pouco tempo.

O conselho é: ignore os minutos finais. Porque, não importa o que aconteceu antes, em comédias românticas estadunidenses, ao fim reina a caretice e a “instituição familiar” num comercial de margarina clássico. Algo que me pergunto é quando vai aparecer uma com um ponto de vista feminino. Como a própria Emily diz: “Can women even have midlife crises? In the movies, it’s always men.”

E, just for the fun, segue a lógica dos tradutores do título:
– Ryan Gosling está no filme. Ele fez “Diário de Uma Paixão”, não fez?
– Ahum, do Nick Cassavetes.
– Cassavetes dirigiu “Uma Prova de Amor”, não dirigiu?
– Hã. Continue.
– Que tal “Amor a Toda Prova?” Acho bom.
– É, ninguém vai relacionar com My Sister’s Keeper.
– Quê?
– “Uma Prova de Amor”.
– Nossa! Nada a ver.

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AUTOR

Fran Lipinski

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