Se um dia você acordasse sozinho em uma nave espacial, sem lembrar seu próprio nome, cercado apenas por equipamentos científicos e pela certeza de que, de alguma forma, o destino da humanidade depende de você, o que faria primeiro? Procuraria café? Entraria em pânico? Ou tentaria lembrar qual botão não deve apertar? Essa é mais ou menos a situação em que Devoradores de Estrelas joga seu protagonista, e o público, logo de cara.
A adaptação chega aos cinemas com uma missão ambiciosa: transformar um dos romances de ficção científica mais queridos dos últimos anos em um espetáculo cinematográfico envolvente. Baseado no livro de Andy Weir, autor que já tinha conquistado Hollywood com Perdido em Marte, o filme transforma conceitos científicos complexos em uma aventura que mistura suspense espacial, humor e uma boa dose de curiosidade científica. Aqui, salvar o planeta não depende de músculos ou explosões, mas de cálculos improvisados, experimentos feitos na marra e muita tentativa e erro, às vezes literalmente.
Dirigido pela dupla Phil Lord e Christopher Miller, o longa mistura ciência, coração e humor em uma aventura espacial que consegue ser grandiosa sem perder o lado humano da história. Lord e Miller já provaram diversas vezes que sabem equilibrar entretenimento e criatividade. A dupla ganhou destaque com comédias cheias de energia como Anjos da Lei e sua continuação, antes de revolucionar a animação com Homem-Aranha no Aranhaverso, vencedor do Oscar. Mesmo quando lidam com grandes franquias ou conceitos complexos, mantêm um estilo marcado por ritmo ágil, humor inteligente e personagens carismáticos. E em Devoradores de Estrelas, isso não é diferente, os dois aplicam esse mesmo espírito a um épico de ficção científica, e o resultado é um filme surpreendentemente leve para uma história sobre o possível fim da humanidade.

A história acompanha Ryland Grace, interpretado por Ryan Gosling, um professor de ciências que desperta sozinho em uma nave espacial sem qualquer memória de quem é ou de como chegou ali. Aos poucos, através de fragmentos de memória, ele descobre que está em uma missão desesperada: salvar o Sol, e toda a vida na Terra, de um misterioso organismo que está drenando sua energia. O roteiro alterna entre o isolamento angustiante da missão e flashbacks que revelam como Grace, um herói improvável, acabou sendo enviado para o espaço. A premissa pode soar familiar dentro do gênero, mas o filme encontra originalidade na forma como mistura suspense científico com momentos de humor e descoberta.
Grande parte do sucesso do filme passa pela atuação de Ryan Gosling. Como boa parte da narrativa acompanha Ryland Grace sozinho dentro da nave, o ator precisa sustentar longos trechos praticamente sem interação com outros personagens. E com isso, Gosling constrói um protagonista que foge do arquétipo clássico do herói espacial. Seu Grace não é um astronauta destemido ou um gênio distante, mas um professor de ciências que claramente preferiria estar em uma sala de aula do que em uma missão suicida no espaço. Essa insegurança, misturada ao entusiasmo diante das descobertas, torna o personagem imediatamente humano e fácil de acompanhar.
Outro destaque fica por conta da Sandra Hüller no papel de Eva Stratt. A atriz, que ganhou grande reconhecimento internacional com trabalhos como Anatomia de uma Queda e Zona de Interesse, traz para o filme uma autoridade fria e extremamente pragmática. Stratt é a responsável por coordenar a resposta global à ameaça que atinge o Sol, e Hüller constrói a personagem com uma presença firme, quase implacável. Mesmo aparecendo principalmente nos flashbacks que mostram como a missão foi organizada, sua atuação ajuda a dar peso às decisões científicas e políticas que tornam a expedição possível. É ela quem reconhece o potencial de Grace e conduz muitas das escolhas difíceis que levam à criação da missão.
Entre as descobertas que Devoradores de Estrelas reserva, nenhuma é tão marcante quanto Rocky. O personagem surge como uma surpresa na narrativa e rapidamente se torna o coração emocional do filme. Curiosamente, apesar de ser um alienígena, ele acaba revelando uma humanidade maior do que muitos personagens humanos.

Quando Ryland Grace percebe que não está sozinho naquela região do espaço, o tom da história muda. Até então, a narrativa era dominada pela solidão e pela tensão de uma missão quase impossível. A presença de Rocky transforma essa dinâmica em algo mais próximo de uma parceria improvável, quase um “buddy movie” cósmico.
Mesmo com diferenças biológicas gigantescas, Rocky compartilha com Grace uma curiosidade incansável e uma determinação teimosa em resolver problemas. Essa conexão inesperada acaba se tornando o centro emocional da história, ampliando a missão de sobrevivência para algo maior: uma cooperação entre espécies tentando salvar seus mundos.
No fim, Devoradores de Estrelas prova que uma grande aventura espacial nem sempre precisa começar com batalhas épicas ou discursos heroicos. Às vezes, basta um professor de ciências confuso, alguns experimentos improvisados e a sorte (ou o acaso cósmico) de encontrar o parceiro certo no meio do universo.






