Existem filmes que nos ganham pelo conflito escancarado. E existem aqueles que apostam na na vida como ela é, ou como poderia ser, caso houvesse um mínimo de suporte. Ainda Não é Amanhã é assim: um retrato sensível e íntimo de uma jovem estudante de Direito, primeira da família matriarcal a conquistar o diploma, que vê seus planos darem uma guinada ao descobrir, quase por acaso, que está grávida. Um momento de descuido, um daqueles segundos que parecem bobagem, mas que transformam tudo.

O que mais impressiona no longa é como ele escolhe mostrar essa virada sem alarde. Não há gritos, não há brigas, não há dedos apontados. E isso é, por si só, uma decisão de muito peso. Porque Ainda Não é Amanhã poderia muito bem ser mais um filme sobre o peso esmagador de uma gravidez inesperada, mas escolhe ser um filme sobre o cotidiano de uma jovem e sua rede de apoio. Sua família, composta por avó, mãe, amiga, namorado, está ali, sem heroísmo, apenas presente. E isso é raro de ver. O namorado de Janaína, por exemplo, não desaparece, não rejeita, não foge. Ele apoia. Ele aceita. Ele está. E o filme faz questão de mostrar isso sem romantizar, sem transformar o simples em grandioso. É só o que deveria ser. Do mesmo jeito que as ausências, as figuras paternas quase apagadas no fundo das histórias, não são nem mencionadas, como se o filme dissesse que quem não fica não merece espaço. É uma escolha corajosa, quase radical: homens podem sumir, e a vida continua.
O início do filme também merece destaque. A forma como a gravidez acontece, um deslize, um momento de pressa, um cálculo errado, é mostrada com total naturalidade. Não há mistério, nem moralismo, apenas a constatação de que, às vezes, é só isso mesmo. Um segundo. E pronto.

Ainda Não é Amanhã é um filme de detalhes, de relações, de olhares. Não é sobre grandes viradas de roteiro, mas sobre como a vida pode seguir, ou não, quando existe apoio. E, mais ainda, sobre como nem toda escolha precisa ser um fardo, quando há espaço para respirar.







