Chantagem e Confissão

(1929) ‧ 1h25

O som da culpa

Felipe Fornari

Em Chantagem e Confissão, Alfred Hitchcock atravessa a fronteira entre o cinema silencioso e o falado sem tratar o som como simples novidade técnica. Seu primeiro longa sonoro já revela um cineasta interessado em compreender como aquilo que ouvimos pode ser tão perturbador quanto aquilo que vemos. Partindo de uma trama de assassinato aparentemente simples, Hitchcock constrói um estudo sobre culpa, desejo, repressão e as frágeis fronteiras entre justiça e moralidade, antecipando temas que atravessariam toda a sua carreira.

Alice White (Anny Ondra) vive um relacionamento frustrante com Frank Webber (John Longden), detetive da Scotland Yard mais envolvido com o trabalho do que com a namorada. Depois de uma discussão, ela acompanha um artista até seu apartamento, inicialmente seduzida pela possibilidade de escapar da rotina. O encontro, porém, transforma-se quando ele tenta violentá-la e Alice o mata com uma faca para se defender. Hitchcock conduz a sequência de maneira angustiante, fazendo com que a violência permaneça menos importante do que aquilo que vem depois dela: a jovem deixa o apartamento fisicamente livre, mas passa a carregar consigo um crime que não consegue abandonar.

É nesse momento que Chantagem e Confissão demonstra como Hitchcock já dominava as possibilidades psicológicas do cinema. A culpa de Alice contamina sua percepção do mundo, e o célebre momento em que uma conversa cotidiana parece reduzir-se à repetição da palavra “faca” transforma o som em expressão de sua consciência. O restante da fala praticamente desaparece enquanto aquele termo invade a cena até se tornar insuportável. Mais do que incorporar diálogos a uma linguagem até então silenciosa, Hitchcock percebe que o som pode ser subjetivo: não precisamos ouvir o ambiente como ele realmente é, mas como a personagem, atormentada, consegue percebê-lo.

A situação se torna ainda mais complexa quando Frank assume a investigação e encontra uma luva capaz de relacionar Alice ao assassinato. O policial imediatamente deixa de representar apenas a lei e passa a agir como homem apaixonado, escondendo uma evidência para protegê-la. A chegada de Tracy (Donald Calthrop), que possui a outra luva e tenta chantagear o casal, embaralha ainda mais as posições de vítima, criminoso e investigador. Hitchcock recusa uma divisão confortável entre inocentes e culpados: Alice matou em legítima defesa, Frank manipula uma investigação e o chantagista acaba convertido no suspeito perfeito para um crime que não cometeu.

Essa ambiguidade moral é acompanhada por uma inventividade visual que demonstra como o diretor não abandonou as conquistas do cinema silencioso ao descobrir o som. Escadas, sombras, objetos e enquadramentos continuam contando partes fundamentais da história, enquanto a perseguição final pelo Museu Britânico antecipa o fascínio de Hitchcock por transformar monumentos reconhecíveis em palcos para situações extremas. O princípio seria levado a dimensões ainda maiores em longas posteriores como Correspondente Estrangeiro e Intriga Internacional, nas quais espaços associados à estabilidade e à identidade nacional se tornam cenários de caos, perseguição e morte.

Também estão presentes elementos que logo se tornariam indissociáveis do universo hitchcockiano: a mulher loira em perigo, a sexualidade atravessada por culpa, o indivíduo ameaçado pelas aparências, a fragilidade das instituições e a transferência da culpa de uma pessoa para outra. Particularmente interessante é a maneira como o filme compromete a autoridade policial. Frank deveria descobrir a verdade, mas, quando essa verdade ameaça sua vida pessoal, escolhe escondê-la. A justiça acaba dependendo menos dos fatos do que da narrativa que consegue prevalecer, enquanto Alice permanece presa ao conhecimento de algo que os demais jamais saberão.

Por isso, Chantagem e Confissão é muito mais do que uma curiosidade histórica por marcar a estreia de Hitchcock no cinema falado e ocupar posição pioneira no som britânico. Mesmo que algumas marcas da transição tecnológica sejam perceptíveis, há uma segurança impressionante na combinação entre imagem, silêncio, ruído e palavra, como se o diretor imediatamente compreendesse as possibilidades dramáticas dessa nova linguagem. O desfecho pode livrar Alice, mas não oferece verdadeira libertação: ela e Frank permanecem unidos por um segredo que altera para sempre a relação entre eles. Hitchcock já compreendia que a culpa mais poderosa não é necessariamente aquela determinada pela lei, mas aquela que continua falando dentro de nós quando todos os outros já se calaram.

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