Intriga Internacional

(1959) ‧ 2h16

O homem que precisou se tornar outra pessoa

Felipe Fornari

Em Intriga Internacional, Alfred Hitchcock transforma uma identidade inexistente no ponto de partida para uma das aventuras mais engenhosas de sua carreira. Roger Thornhill, bem-sucedido publicitário nova-iorquino, levanta a mão no momento errado dentro de um hotel e passa a ser confundido com George Kaplan, suposto agente americano perseguido por uma organização de espionagem. Sequestrado, interrogado e posteriormente envolvido em um assassinato, Thornhill descobre que ninguém parece disposto a acreditar em sua verdadeira identidade. Hitchcock leva assim o tema do falso culpado à sua expressão mais divertida e espetacular: para provar que não é Kaplan, Roger precisará progressivamente agir exatamente como o homem que todos acreditam que ele seja.

Cary Grant é indispensável para o equilíbrio entre perigo e comédia. Thornhill começa como alguém acostumado a fabricar imagens profissionalmente, um publicitário elegante que domina conversas, mente com facilidade e acredita poder sair de qualquer situação utilizando charme e raciocínio rápido. A conspiração destrói essa segurança ao impor-lhe uma identidade que ele não controla. A relação com a mãe, interpretada por Jessie Royce Landis, acentua de maneira hilária sua impotência, sobretudo quando ela trata como absurdo o relato de que criminosos pretendem assassiná-lo. Grant consegue parecer sofisticado mesmo quando completamente perdido, permitindo que Hitchcock coloque um homem impecavelmente vestido nas situações mais absurdas sem romper a credibilidade daquele universo.

A entrada de Eve Kendall transforma a perseguição em jogo de sedução. Eva Marie Saint surge no trem como a passageira que reconhece Thornhill e, em vez de denunciá-lo, oferece ajuda com uma desenvoltura imediatamente suspeita. A atração entre os dois nasce acompanhada pela dúvida sobre quem está manipulando quem. Eve parece amante, cúmplice, traidora e vítima em diferentes momentos, enquanto Thornhill precisa decidir se pode confiar justamente na pessoa que mais deseja. James Mason completa o triângulo como Philip Vandamm, um vilão cuja elegância funciona como contraponto perfeito à de Grant. Hitchcock novamente prefere criminosos educados e sofisticados, tornando a ameaça mais inquietante porque ela raramente precisa levantar a voz.

A sequência do avião pulverizador permanece uma demonstração quase perfeita da construção hitchcockiana do suspense. Em vez de esconder o protagonista em uma rua escura ou espaço claustrofóbico, o diretor abandona Thornhill no meio de uma paisagem completamente aberta, sob a luz do dia, aparentemente sem qualquer lugar onde o perigo possa se esconder. A espera é prolongada através de carros que passam, ruídos distantes e olhares para um horizonte vazio até que um pequeno avião começa a agir de maneira estranha. Hitchcock elimina praticamente a música e deixa que espaço, montagem e som construam a ameaça. Quando a perseguição finalmente começa, o absurdo da situação já foi transformado em terror perfeitamente convincente.

Essa habilidade de utilizar lugares reconhecíveis como palcos para situações extraordinárias atravessa Intriga Internacional. A sede das Nações Unidas, a estação ferroviária, o leilão e finalmente o Monte Rushmore deixam de funcionar apenas como cenários para integrar a lógica visual da aventura. O clímax sobre os rostos monumentais dos presidentes americanos leva essa tendência ao limite, reduzindo Thornhill e Eve a pequenas figuras agarradas a uma gigantesca representação da história nacional. Hitchcock já havia utilizado espaços públicos de maneira memorável em O Homem Que Sabia Demais, mas aqui transforma praticamente o território americano em cenário de uma fantasia de espionagem na qual qualquer ambiente pode repentinamente adquirir uma função inesperada.

Por trás do entretenimento existe ainda uma reflexão divertida sobre identidade. George Kaplan não existe, mas roupas, reservas de hotel e outros vestígios foram cuidadosamente criados para convencer os inimigos de que ele é real. Thornhill, por sua vez, existe, mas passa boa parte da narrativa incapaz de provar quem é. O homem da publicidade, profissão baseada na construção de imagens e desejos, acaba aprisionado pela mais elaborada campanha fictícia de sua vida. A jornada também modifica sua relação com Eve: aquilo que começa como atração entre duas pessoas que escondem informações gradualmente exige confiança verdadeira. A espionagem funciona, portanto, como uma gigantesca encenação na qual sobreviver depende de compreender qual papel cada um está interpretando.

Intriga Internacional é uma síntese extraordinária do cinema de Hitchcock e uma das experiências mais prazerosas de sua filmografia. O falso culpado de 39 Degraus, a espionagem de Interlúdio, o glamour de Ladrão de Casaca e o fascínio por monumentos, loiras enigmáticas e identidades instáveis reaparecem refinados por um diretor em domínio absoluto de sua linguagem. Bernard Herrmann fornece uma música pulsante, Grant e Saint combinam sensualidade e humor, e cada grande sequência parece construída para demonstrar novas possibilidades do suspense cinematográfico. Entre Um Corpo que Cai e Psicose, Hitchcock realizou uma obra aparentemente mais leve, mas não menos perfeita: uma fantasia vertiginosa na qual um homem passa tanto tempo tentando provar quem não é que acaba descobrindo quem pode se tornar.

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