It: Bem-Vindos a Derry – 1ª Temporada

(2025—) ‧ 1h

04.12.2025

Derry nunca dorme: O terror que insiste em voltar

IT: Bem-vindos a Derry expande o universo criado por Stephen King ao revisitar a cidade onde o mal nunca descansa. Ambientada décadas antes dos eventos de It: A Coisa, a série assume o desafio de justificar sua existência para além do fan service, mergulhando em traumas coletivos, ciclos de violência e no terror silencioso que se infiltra no cotidiano. Desde o início, fica claro que a proposta não é apenas explicar Pennywise, mas explorar o impacto prolongado de sua presença sobre gerações inteiras.

A primeira temporada aposta em ampliar a mitologia apresentada nos filmes, costurando acontecimentos históricos, lendas locais e personagens inéditos em uma narrativa que tenta se sustentar sozinha. Nem todas as ideias funcionam com a mesma força, mas há um esforço genuíno em manter a essência “kinguiana”: o medo nasce menos do monstro em si e mais da sensação de isolamento, da cidade que se volta contra seus próprios moradores e da infância constantemente ameaçada.

O episódio final concentra tudo isso em um espetáculo grandioso, por vezes excessivo, mas emocionalmente eficaz. A névoa que toma Derry cria um clima de filme-catástrofe, transformando ruas conhecidas em territórios hostis. Ainda que algumas escolhas visuais e explicações narrativas soem convenientes, o resultado é atmosférico e perturbador, oferecendo imagens fortes que dialogam bem com o imaginário da franquia.

Bill Skarsgård, mais uma vez, reafirma seu domínio absoluto sobre Pennywise. Mesmo quando a série arrisca torná-lo mais visível e expansivo, algo que poderia diminuir seu mistério, o ator mantém a ameaça viva graças à entrega física e ao olhar inquietante. Há momentos em que o palhaço assume proporções quase absurdas, mas o compromisso de Skarsgård impede que o terror descambe totalmente para a caricatura.

Entre os humanos, o destaque vai para Dick Hallorann, personagem que serve como elo emocional da temporada. Sua jornada, marcada por empatia e sofrimento, resgata o aspecto mais tocante do universo de King: a conexão entre pessoas comuns diante do incompreensível. Nem todos os coadjuvantes recebem o mesmo cuidado, e algumas despedidas soam apressadas, mas os arcos centrais encontram resoluções satisfatórias.

A série também se permite brincar com o tempo, sugerindo que Pennywise não segue as mesmas regras temporais que os humanos. Essa escolha amplia o alcance do terror, conectando passado, presente e futuro de forma inquietante, ainda que algumas revelações pareçam lançadas mais como provocação do que como desenvolvimento plenamente amadurecido. É uma aposta ousada, que pode render frutos interessantes adiante.

No saldo final, IT: Bem-vindos a Derry entrega uma temporada irregular, mas ambiciosa e envolvente. Nem todas as engrenagens se encaixam perfeitamente, porém os momentos de horror, emoção e expansão mitológica compensam os tropeços. Ao salvar seus movimentos mais estranhos e intensos para o fim, a série reafirma que Derry continua sendo um lugar onde o medo se reinventa — e que ainda há muitas histórias sombrias a serem contadas. Uma estreia sólida e criativa, que merece sua nota 4 de 5.

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AUTOR

Felipe Fornari

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