Topázio

(1969) ‧ 2h23

Espiões, traições e um mundo dividido

Felipe Fornari

Depois de Cortina Rasgada, Alfred Hitchcock permanece no território da Guerra Fria com Topázio, mas abandona a aventura concentrada em poucos protagonistas para construir uma intriga internacional muito mais fragmentada. A partir da deserção de um importante agente soviético em Copenhague, o americano Michael Nordstrom descobre indícios da presença de mísseis soviéticos em Cuba e de uma organização chamada Topázio infiltrada nos serviços de inteligência franceses. Para investigar, recorre ao agente André Devereaux, que atravessa países, mobiliza contatos e coloca outras pessoas em perigo para conseguir informações. A escala é enorme, mas Hitchcock parece menos interessado na adrenalina da espionagem do que na rede de relações pessoais sacrificadas por ela.

Frederick Stafford interpreta Devereaux com uma contenção adequada ao profissional habituado a esconder intenções, embora lhe falte o magnetismo que Cary Grant emprestava a Intriga Internacional. Essa ausência de uma estrela dominante parece deliberada: Topázio funciona como narrativa coletiva na qual informações passam de personagem para personagem e ninguém controla completamente o tabuleiro. O resultado reforça a sensação de uma engrenagem política internacional, mas cobra um preço emocional. Devereaux desaparece durante trechos consideráveis, e o filme frequentemente parece mudar de protagonista quando acompanha aqueles que ele recruta para realizar tarefas que não pode executar pessoalmente.

É justamente uma dessas missões que produz um dos melhores segmentos. Em Nova York, Devereaux procura Philippe Dubois para conseguir documentos relacionados aos soviéticos em Cuba. Roscoe Lee Browne conduz a sequência com enorme presença, infiltrando-se em um hotel e transformando uma operação de espionagem em exercício de observação, improvisação e movimento. Hitchcock recupera aqui sua capacidade de fazer o espectador compreender um plano principalmente através de ações e espaços. Mais tarde, em Cuba, a narrativa encontra seu verdadeiro centro emocional em Juanita de Cordoba, interpretada por Karin Dor. Agente da resistência e antiga amante de Devereaux, ela confere dimensão humana a uma trama que frequentemente ameaça desaparecer sob nomes, organizações e informações políticas.

A morte de Juanita está entre as imagens mais extraordinárias do período final de Hitchcock. Quando Rico Parra percebe sua traição, a violência é apresentada de maneira quase silenciosa, e o vestido da personagem se abre no chão enquanto seu corpo desaba, formando visualmente algo semelhante a uma flor. Não é necessário mostrar sangue para que o assassinato adquira brutalidade. O uso expressivo das cores atravessa todo Topázio, com amarelos, vermelhos e tons de lavanda criando associações entre personagens, alianças, perigo e morte. Mesmo quando a narrativa se torna excessivamente verbal, Hitchcock continua procurando maneiras essencialmente visuais de organizar um universo no qual praticamente todos escondem alguma coisa.

A espionagem também invade os relacionamentos íntimos. Devereaux não esconde apenas segredos de Estado da esposa Nicole; mantém uma relação com Juanita, fazendo com que traição política e infidelidade conjugal funcionem como reflexos uma da outra. Quando a investigação finalmente se desloca para a França e a organização Topázio ganha prioridade, o filme apresenta outra espécie de ameaça: pessoas perfeitamente integradas aos círculos diplomáticos e sociais podem servir a interesses completamente diferentes daqueles que aparentam defender. Hitchcock retorna assim ao fascínio pelo inimigo respeitável, aquele que não precisa parecer perigoso porque sua maior proteção é justamente pertencer ao ambiente no qual atua.

O problema é que Topázio possui material demais para que todas essas ideias recebam a mesma força. A adaptação do romance de Leon Uris atravessa Copenhague, Washington, Nova York, Havana e Paris, introduzindo personagens e conflitos em velocidade suficiente para exigir atenção constante, mas sem sempre recompensá-la dramaticamente. Há longos diálogos dedicados à transmissão de informações, mudanças bruscas de foco e uma investigação final menos empolgante do que os episódios anteriores prometiam. A ausência da colaboração de Bernard Herrmann e do fotógrafo Robert Burks também contribui para uma sensação diferente daquela encontrada no período mais celebrado do diretor. Hitchcock ainda produz imagens brilhantes, mas o conjunto não possui a fluidez de suas grandes obras.

Mesmo irregular, Topázio é mais interessante do que sua reputação frequentemente sugere. Se Cortina Rasgada parecia um Hitchcock tentando adaptar antigas fórmulas de espionagem a uma nova década, aqui existe uma tentativa mais ousada de abandonar o herói tradicional e representar a Guerra Fria como uma rede internacional de informações, interesses e traições. A fragmentação que prejudica o suspense também expressa um mundo no qual ninguém possui acesso à história inteira e cada descoberta depende do risco assumido por outra pessoa. O resultado está distante da precisão de Interlúdio ou da exuberância de Intriga Internacional, mas contém sequências visualmente magníficas e uma melancolia incomum. Em Topázio, descobrir quem está traindo quem é apenas parte do problema; a outra é perceber quanto todos já perderam quando a verdade finalmente aparece.

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