Cortina Rasgada

(1966) ‧ 2h08

Espionagem entre dois mundos

Felipe Fornari

Realizado em um momento no qual o cinema de espionagem havia sido profundamente transformado pelo fenômeno James Bond, Cortina Rasgada mostra Alfred Hitchcock tentando reencontrar seu lugar dentro de um gênero que ajudara a explorar décadas antes. Michael Armstrong, respeitado físico americano, viaja para Copenhague acompanhado pela noiva e assistente Sarah Sherman, mas comportamentos misteriosos despertam nela a suspeita de que ele pretende desertar para a Alemanha Oriental. A verdade envolve uma missão secreta destinada a obter informações científicas soviéticas, colocando o casal atrás da Cortina de Ferro. A premissa contém vários elementos familiares ao diretor, mas o resultado oscila entre momentos de extraordinária precisão e uma aventura de espionagem surpreendentemente convencional.

Paul Newman interpreta Armstrong com uma seriedade que combina com o cientista, mas nem sempre com o universo hitchcockiano. O personagem passa boa parte do filme escondendo suas intenções, primeiro de Sarah e depois das autoridades alemãs, o que limita aquilo que Newman pode revelar emocionalmente. Julie Andrews encontra um pouco mais de espaço quando Sarah percebe que o homem com quem pretende se casar pode ser alguém completamente diferente daquele que imaginava. O problema está na química limitada entre os dois. Hitchcock havia transformado atração e desconfiança em forças inseparáveis em Interlúdio e Ladrão de Casaca; aqui, embora a mesma possibilidade exista, o relacionamento raramente adquire temperatura suficiente para que a crise política também funcione como crise amorosa.

A grande exceção às limitações do conjunto surge na sequência em que Armstrong e uma camponesa precisam matar o agente Gromek. Hitchcock desmonta deliberadamente a facilidade com que o cinema costuma representar assassinatos. Uma faca não resolve, o estrangulamento demora, golpes são insuficientes e cada nova tentativa prolonga uma luta fisicamente desagradável até que um forno finalmente permita concluir o ato. Não existe glamour ou heroísmo, apenas duas pessoas desesperadas descobrindo quanto esforço é necessário para tirar uma vida. É uma das cenas mais violentas da filmografia do diretor justamente porque a violência não é estilizada: matar alguém torna-se um processo demorado, exaustivo e assustadoramente concreto.

Depois desse momento excepcional, Cortina Rasgada retorna a uma estrutura de fuga mais conhecida. Armstrong precisa chegar ao professor Lindt e extrair dele a fórmula que motivou toda a missão, utilizando o orgulho intelectual do cientista para fazê-lo revelar mais do que deveria diante de um quadro-negro. A ideia é engenhosa porque transforma conhecimento em objeto de roubo: não há documentos para carregar ou joias para esconder, apenas uma informação que precisa ser obtida e memorizada. Quando Armstrong e Sarah finalmente precisam escapar, Hitchcock recupera parte de sua habilidade em transformar deslocamento em suspense, especialmente na viagem de ônibus em que qualquer atraso pode permitir que os perseguidores diminuam a distância.

Entre esses episódios aparece a condessa Kuchinska, interpretada por Lila Kedrova, personagem quase deslocada da trama principal e justamente por isso memorável. Desesperada para deixar a Alemanha Oriental, ela acredita que ajudar o casal poderá garantir-lhe um visto para os Estados Unidos. Sua insistência mistura humor, tristeza e humilhação, introduzindo uma dimensão humana em uma narrativa dominada por estratégias políticas. Para Armstrong e Sarah, atravessar uma fronteira significa concluir uma missão; para a condessa, significa a possibilidade de reconstruir a própria existência. Hitchcock encontra nela uma melancolia que o restante do filme raramente consegue alcançar, mesmo que sua participação interrompa o ritmo da perseguição.

O último trecho acumula ideias tipicamente hitchcockianas: um teatro lotado, uma bailarina que reconhece os fugitivos, o pânico provocado por um falso alerta de incêndio e caixas de figurinos utilizadas como esconderijo. São elementos capazes de produzir boas sequências isoladas, mas a narrativa já demonstra certo cansaço. Também pesa a ausência de Bernard Herrmann, cuja colaboração com Hitchcock terminou de maneira conturbada durante a produção. Depois de contribuições fundamentais para filmes como Um Corpo que Cai, Psicose e Marnie, Confissões de uma Ladra, sua falta ajuda a tornar ainda mais perceptível que alguma coisa mudou. Existem marcas reconhecíveis do cineasta, mas elas já não se combinam com a mesma fluidez.

Cortina Rasgada é, portanto, um Hitchcock irregular, mas longe de desinteressante. O filme possui uma das melhores representações da dificuldade física de cometer um assassinato, algumas situações engenhosas de perseguição e momentos nos quais o diretor recupera sua extraordinária capacidade de transformar espaço e tempo em suspense. Ao mesmo tempo, a duração excessiva, a pouca química entre Newman e Andrews e uma trama de espionagem menos inspirada impedem que essas qualidades formem um conjunto à altura de Intriga Internacional ou O Homem Que Sabia Demais. Em vez de uma reinvenção do gênero, temos um mestre revisitando território conhecido enquanto o próprio cinema ao redor começava a mudar. A cortina do título separa dois mundos políticos, mas também parece marcar a passagem entre duas fases da carreira de Hitchcock.

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