Aconteceu Naquela Noite

A comédia e o romance funcionam perfeitamente bem em "Aconteceu Naquela Noite"

09.04.1934 │ 08:00

09.04.1934 │ 08:00

A comédia e o romance funcionam perfeitamente bem em "Aconteceu Naquela Noite"

Aconteceu Naquela Noite, de Frank Capra, é um dos grandes “modelos” de comédia romântica. Embora o filme tenha sido refilmado algumas vezes (a maioria das vezes em outras línguas), a combinação de comédia com road trip tornou-se uma das fórmulas das histórias do gênero. Com o passar dos anos, há pelo menos um lançamento que tenha uma ou outro dívida com esse filme.

O filme, criado por Capra e o roteirista Robert Riskin (a partir de um conto de Samuel Hopkins Adams), nunca teve a intenção de ser mais do que um romance efêmero com elementos cômicos. Na verdade, o roteiro foi considerado tão pouco inspirado que vários atores e atrizes recusaram a participação no filme. Apesar de ser considerado “nada especial”, Aconteceu Naquela Noite ganhou todos os Oscars para os quais foi indicado, tornando-se um dos poucos filmes da história a vencer em cada um das cinco categorias principais (Filme, Diretor, Ator, Atriz e Roteiro).

Quando o filme começa, descobrimos que a herdeira Ellie Andrews (Claudette Colbert, de A Oitava Esposa de Barba-Azul) fugiu com o aventureiro King Westley (Jameson Thomas, de Piccadilly). No entanto, antes que o casamento possa ser consumado, seu pai, Alexander (Walter Connolly, de Suprema Conquista), separa a noiva do noivo. Ellie é mantida “refém” em um barco na costa da Flórida, mas ela escapa fazendo o impensável – ela pula no mar e nada para a praia. Lá, incógnita, ela embarca em um ônibus com destino a Nova York, onde Westley se encontra. Ela acaba chamando atenção do jornalista desempregado Peter Warne (Clark Gable, de …E o Vento Levou), que está no ônibus com ela. Os dois fazem um pacto: ele a levará ao marido para que eles possam ter um casamento “adequado” se ela lhe contar uma história exclusiva. Assim começa uma lendária relação de amor/ódio.

Nem Gable nem Colbert foram a primeira escolha para os respectivos papéis. Tal como acontece com Casablanca, este é um caso que resultou no melhor elenco possível para o filme. Gable e Colbert possuem uma química perfeita, o roteiro acaba ganhando mais substância com ambos no papel. Gable, que foi indicado três vezes na categoria de Melhor Ator (também por O Grande Motim e …E o Vento Levou), ganhou seu único Oscar por Aconteceu Naquela Noite. Este foi também o único prêmio de Colbert (dentre três indicações).

O triângulo amoroso entre o público, a Academia e Frank Capra começou um ano antes quando o diretor foi indicado por Dama por um Dia, de 1933. Depois disso, três dos próximos cinco filmes de Capra lhe renderam não apenas indicações de Melhor Diretor, mas também lhe consagraram com o prêmio. Sua visão sentimental do mundo, o otimismo dos seus protagonistas e sua tendência para finais felizes foram o motivo do sucesso do diretor nos anos sombrios da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial.

Aconteceu Naquela Noite não inventou a comédia romântica, mas trouxe novas camadas a ela. Garota Sinal Verde, de Rob Reiner (Conta Comigo) não foi uma refilmagem direta, mas tem tanto do filme de Capra que é surpreendente que os créditos não reconheçam Robert Riskin como roteirista.

Visto hoje, Aconteceu Naquela Noite parece uma espécie de cópia de si mesmo, mas esse é o caso de um filme vitimado por sua popularidade. O número de histórias que o imitam dilui o frescor e a espontaneidade associadas à produção de Capra. No entanto, nada pode tirar a força das performances de Gable e Colbert, a ilusão do romance da dupla e a destreza de Capra em elaborar esse tipo de narrativa. Os elementos de comédia funcionam tão bem quanto a história de amor, o que é uma raridade no gênero.

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