Pânico

(1996) ‧ 1h51

31.01.1996

"Pânico": Quem está atrás da máscara?

Pânico é um daqueles filmes que não apenas revitalizam um gênero — no caso, o terror slasher — mas também o analisam com olhar crítico e apaixonado. Wes Craven, já veterano do horror, cria aqui uma obra que é ao mesmo tempo sangrenta e irônica, capaz de assustar e fazer rir, tudo dentro da mesma sequência. E o mais surpreendente é que essa brincadeira com os clichês não enfraquece o suspense: pelo contrário, o reforça.

Logo na cena de abertura, uma das mais icônicas do cinema dos anos 1990, Pânico estabelece seu tom. Drew Barrymore, que aparece em destaque no material de divulgação, é rapidamente transformada em vítima, num prólogo tenso que homenageia e subverte os códigos do gênero. A violência é chocante, mas o diálogo afiado e autorreferente já deixa claro que estamos diante de algo diferente. O assassino não quer apenas matar — ele quer jogar, provocar, fazer citações de Halloween e perguntar sobre seu filme de terror favorito.

A partir daí, somos apresentados a Sidney Prescott, interpretada por uma convincente Neve Campbell. Diferente das final girls tradicionais, Sidney é introspectiva, esperta e emocionalmente complexa — o que não a impede de cometer erros típicos de filmes de terror, mas sempre com um grau de autoconsciência. O assassinato de sua mãe um ano antes adiciona uma camada de trauma à narrativa, dando mais peso às ameaças que a cercam.

Enquanto os assassinatos se multiplicam e o mistério se adensa, Pânico se diverte com o que o público espera de um filme do tipo. Personagens fazem piadas sobre os clichês do gênero, listam as regras para sobreviver a um slasher e até assistem Halloween enquanto são perseguidos por um assassino usando uma fantasia do tipo “Grim Reaper de loja de festas”. A genialidade do roteiro de Kevin Williamson está em fazer o público rir de nervoso — e depois gritar de verdade.

Há momentos em que o filme parece um jogo de espelhos: enquanto vemos personagens sendo atacados, assistimos também a cenas clássicas de outros filmes, como Halloween, em uma metalinguagem que não é apenas divertida — é engenhosa. O famoso “Olhe atrás de você!” ecoa na TV e na ação ao vivo, criando uma sobreposição deliciosa entre ficção e realidade que é puro deleite.

Nem tudo é perfeito. O excesso de reviravoltas no final pode cansar, e algumas atuações são irregulares — Courteney Cox, por exemplo, não convence como a jornalista durona, embora traga energia ao papel. Por outro lado, o elenco jovem e pouco conhecido na época dá ao filme uma autenticidade rara, e até participações rápidas como as de Barrymore e Henry Winkler deixam sua marca.

Mas o maior trunfo de Pânico está no equilíbrio: é um filme que entende os códigos do gênero tão bem que consegue ao mesmo tempo segui-los e subvertê-los. Ele é sangrento sem ser gratuito, engraçado sem ser paródia pura, e inteligente sem perder a capacidade de entreter. Um verdadeiro clássico moderno do terror — e um lembrete de que, mesmo nos filmes mais previsíveis, ainda podemos ser surpreendidos.

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AUTOR

Felipe Fornari

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