John Wick: De Volta ao Jogo

(2014) ‧ 1h41

27.11.2014

"John Wick: De Volta ao Jogo": Alguns filmes acertam o coração como um sussurro; outros, como um tiro. Este faz ambos!

Na era dos blockbusters genéricos e das franquias recicladas, é raro encontrar um filme de ação que saiba equilibrar violência estilizada com emoção genuína. Mas aqui está ele — uma história de dor, perda e redenção armada, centrada em um protagonista tão letal quanto vulnerável.

Nosso herói, John Wick (vivido com intensidade contida por Keanu Reeves), um ex-assassino profissional, havia deixado para trás a vida sangrenta para viver um grande amor. Aposentou-se não por medo, mas por amor. Uma decisão rara nesse mundo de códigos sombrios. No entanto, a tragédia o alcança: sua esposa morre subitamente, deixando-o devastado e recluso. A vida parece suspensa — até que ele recebe o último presente dela: uma cadelinha enviada para preencher o vazio deixado pela perda.

Mas a paz dura pouco. Bandidos invadem sua casa, roubam seu carro de estimação — um Mustang Boss 429 de 1969, que é um personagem por sí só — e, em um ato covarde e brutal, matam a cadela — símbolo vivo do último afeto que ele tinha. É nesse momento que o homem que tentou abandonar a violência se vê obrigado a voltar às armas. Não por dinheiro. Não por dever. Mas por algo ainda mais implacável: vingança.

O filme poderia ter se perdido no clichê. Mas não. O roteiro, assinado por Derek Kolstad, é direto, eficiente, quase minimalista — deixando espaço para que a coreografia das ações falem por si. E que espetáculo visual e técnico elas são. As cenas de luta e tiroteio são incrivelmente bem coreografadas, filmadas com uma clareza rara no cinema moderno de ação. Cada movimento é tenso, preciso, brutal — e, acima de tudo, realista.

Muito disso se deve ao comprometimento do ator principal, que passou por extensos treinamentos com armas de fogo e combate corpo a corpo para incorporar seu personagem. O resultado salta aos olhos: ele não interpreta um assassino, ele é o assassino. E não há um segundo em que isso pareça inverossímil.

Sob a direção de Chad Stahelski, ex-dublê e parceiro criativo de Reeves desde os tempos de Matrix, o filme constrói um universo próprio, com regras e códigos que ressoam tanto quanto qualquer arma disparada. Ao longo de sua jornada sangrenta, o protagonista reencontra antigos aliados e rivais, com participação de Willem Dafoe, Ian McShane e John Leguizamo. É evidente o respeito que ele impõe no submundo ao qual pertenceu — um respeito forjado não por palavras, mas por reputação e ação. E o mais fascinante é sua obstinação: ele não hesita, não recua, não negocia. Há uma clareza quase poética em sua missão. É a fúria canalizada, fria e implacável, que o move.

Não se trata apenas de matar. Trata-se de restaurar uma parte de si mesmo que foi roubada. E nesse processo, o filme nos convida a refletir sobre perda, luto e o peso das escolhas. Em mãos menos habilidosas, poderia ser apenas mais uma história de vingança. Mas aqui, há estilo, há propósito e, sim — há coração.

Um lembrete de que, às vezes, o barulho dos tiros serve apenas para destacar o silêncio que vem depois da perda.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Daniel Cazaes de Sousa

OUTRAS CRÍTICAS

The Post – A Guerra Secreta

The Post – A Guerra Secreta

Não me entenda mal: Steven Spielberd é um grande cineasta. Dito isto, posso acrescentar que não tenho me deslumbrado tanto com o cinema recente do diretor, mesmo com os indicados Ponte dos Espiões, Cavalo de Guerra e Lincoln. Minha sensação é que o cineasta se perde...

Pânico 7

Pânico 7

A produção de Pânico 7 foi marcada por um dos bastidores mais turbulentos da história recente de Hollywood. Após a demissão de Melissa Barrera, a saída de Jenna Ortega por conflitos de agenda e a desistência do diretor Christopher Landon, o filme precisou se...

Pets em Ação!

Pets em Ação!

Uma história comum, bem similar aos filmes com animais reais nos anos 1990, em que por algum motivo eles se encontram em uma situação que precisam se aventurar em meio aos perigos da cidade ou do campo. Aqui Pedro e Grace vivem como cães e gatos, não apenas por...