Frenesi

(1972) ‧ 1h56

O assassino está entre nós

Felipe Fornari

Com Frenesi, Alfred Hitchcock retorna a Londres mais de duas décadas depois de Pavor nos Bastidores e encontra uma cidade muito diferente daquela que havia deixado. O filme começa com uma visão grandiosa do Tâmisa, acompanhando um discurso otimista sobre a recuperação do rio até que um cadáver nu surge flutuando na água. Em poucos minutos, Hitchcock desmonta a imagem respeitável da cidade e estabelece o tom de uma obra particularmente cínica. Um serial killer conhecido como “Assassino da Gravata” estupra e estrangula mulheres, enquanto Richard Blaney, desempregado, alcoólatra e temperamental, reúne todas as características necessárias para que a polícia enxergue nele o culpado perfeito. O velho tema hitchcockiano do falso acusado retorna, mas agora sem o glamour de suas versões anteriores.

Jon Finch faz de Blaney um protagonista propositalmente difícil de abraçar. Diferentemente do elegante Roger Thornhill de Intriga Internacional, ele é agressivo, ressentido e frequentemente desagradável. Sua inocência nos crimes não significa que seja especialmente virtuoso, e Hitchcock utiliza essa diferença para tornar a acusação mais plausível. O verdadeiro assassino, Bob Rusk, interpretado por Barry Foster, representa exatamente o contrário: sociável, prestativo e integrado à rotina de Covent Garden. Sabemos cedo que ele é o criminoso, eliminando qualquer mistério sobre sua identidade. O suspense nasce justamente da distância entre aquilo que conhecemos e aquilo que os demais personagens acreditam, enquanto Rusk utiliza sua aparência de normalidade como proteção.

A sequência envolvendo Brenda Blaney está entre as mais brutais realizadas por Hitchcock. Depois de décadas sugerindo violência através da montagem, do som e daquilo que permanecia fora de quadro, o diretor aproveita as novas liberdades do cinema dos anos 1970 para mostrar o estupro e o assassinato com uma duração profundamente desconfortável. A intenção de retirar qualquer sedução do crime é evidente, mas a exposição prolongada da violência sexual também torna a cena problemática, especialmente pela maneira como o corpo feminino é submetido ao olhar da câmera. Muito mais eficiente é a decisão posterior envolvendo Babs: Hitchcock acompanha a jovem entrando no apartamento de Rusk e então recua silenciosamente pela escada, atravessa o corredor e retorna à rua. Sabemos o que acontecerá sem precisar testemunhar novamente, e justamente essa ausência torna o momento aterrador.

O humor ácido reaparece quando Rusk percebe que deixou uma prova incriminadora junto ao cadáver de Babs, escondido em um caminhão carregado de batatas. O assassino precisa recuperar seu alfinete enquanto o veículo atravessa a estrada e o rigor mortis transforma a tarefa em um grotesco exercício físico. Hitchcock realiza algo perverso: durante alguns minutos, coloca o espectador na posição de acompanhar o problema do criminoso e quase desejar que ele consiga encontrar aquilo que procura. Comida, corpos e morte são associados repetidamente ao longo de Frenesi, desde o mercado de Covent Garden até as discussões domésticas do inspetor Oxford, obrigado a enfrentar as desastrosas experiências culinárias da esposa enquanto investiga assassinatos.

Essa investigação também oferece ao filme seu necessário contraponto. Alec McCowen interpreta Oxford sem transformá-lo no policial incompetente necessário para prolongar artificialmente a perseguição. Conforme as evidências contra Blaney começam a parecer convenientes demais, ele reconsidera suas conclusões e passa a observar Rusk. As conversas durante os jantares são engraçadas justamente porque acontecimentos terríveis são discutidos diante de pratos cada vez menos apetitosos. Hitchcock recupera aqui o humor mórbido de O Terceiro Tiro, embora inserido em uma obra incomparavelmente mais cruel. A comida representa prazer, consumo e deterioração, fazendo da abundância do mercado londrino um cenário ironicamente apropriado para um predador que trata pessoas como objetos descartáveis.

A trama de Frenesi não possui a mesma sofisticação psicológica de Um Corpo que Cai nem a elegância de Janela Indiscreta, e algumas coincidências necessárias para incriminar Blaney revelam demais a engrenagem narrativa. Ainda assim, depois da irregularidade de Cortina Rasgada e Topázio, é impressionante perceber Hitchcock novamente tão confortável na construção de sequências individuais. Londres parece viva, vulgar e indiferente, muito distante dos cartões-postais de seus thrillers anteriores. O diretor já não precisa acompanhar um herói simpático atravessando monumentos; basta observar becos, apartamentos, pubs e mercados para encontrar violência escondida atrás da rotina.

Frenesi é um retorno às origens sem qualquer tentativa de recuperar a inocência do passado. Hitchcock reencontra Londres, o falso culpado, o assassino aparentemente respeitável e seu humor macabro, mas os transporta para um cinema mais explícito e desencantado. Nem todas as escolhas envelheceram com a mesma força, sobretudo na representação da violência contra as mulheres, porém existe uma energia na direção que parecia ausente de seus trabalhos imediatamente anteriores. O desfecho resume perfeitamente essa recuperação: Blaney está diante de outro cadáver quando Oxford aparece, criando por alguns segundos a possibilidade de mais um terrível equívoco, até que Rusk chega carregando a prova de sua própria culpa. Uma frase seca do inspetor basta para encerrar tudo. Depois de uma carreira inteira demonstrando como as aparências enganam, Hitchcock ainda sabia exatamente quando uma gravata podia dizer mais do que qualquer confissão.

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