Trama Macabra

(1976) ‧ 2h

O último jogo de aparências de Hitchcock

Felipe Fornari

Alfred Hitchcock encerra sua filmografia com Trama Macabra de maneira curiosamente despretensiosa. Em vez da violência de Frenesi ou da densidade psicológica de seus trabalhos mais célebres, seu último filme aposta em uma comédia de suspense construída ao redor de dois casais que inicialmente parecem habitar histórias diferentes. Blanche Tyler é uma falsa médium contratada pela milionária Julia Rainbird para localizar um sobrinho desaparecido, enquanto seu namorado George investiga pistas capazes de levá-los à recompensa prometida. Paralelamente, Arthur Adamson e Fran sequestram pessoas ricas e exigem joias como resgate. Hitchcock revela desde cedo que essas duas tramas inevitavelmente irão colidir; a diversão está em descobrir como isso acontecerá.

Barbara Harris estabelece imediatamente o tom através de uma Blanche que transforma charlatanismo em espetáculo. Ela geme, fecha os olhos, conversa com espíritos inexistentes e abandona a performance assim que não precisa mais convencer sua cliente. Bruce Dern acompanha perfeitamente essa energia como George, taxista transformado em investigador improvisado. Os dois vivem de pequenas encenações, mas parecem quase inocentes diante do segundo casal. William Devane faz de Arthur um criminoso sofisticado cuja respeitabilidade esconde uma atividade muito mais perigosa, enquanto Karen Black confere a Fran uma combinação divertida de sensualidade, ansiedade e prazer pela transgressão. Todos estão representando alguma coisa para alguém, fazendo da identidade novamente um jogo essencialmente hitchcockiano.

O roteiro de Ernest Lehman, responsável também por Intriga Internacional, encontra sua principal graça na construção paralela dessas trajetórias. Blanche procura um homem desaparecido sem saber que está se aproximando de um sequestrador; Arthur sequestra desconhecidos enquanto tenta manter desaparecida sua própria identidade. O homem procurado e aquele especializado em fazer pessoas sumirem são, ironicamente, o mesmo indivíduo. Hitchcock permite que o público saiba mais do que seus personagens e transforma essa vantagem em expectativa. Não existe propriamente um grande mistério a ser solucionado por nós. Observamos duas linhas narrativas avançando lentamente uma em direção à outra, esperando o momento em que uma investigação aparentemente inofensiva atravessará o território de criminosos verdadeiramente perigosos.

A obsessão por identidades falsas conecta Trama Macabra a boa parte da carreira do diretor. Blanche finge conversar com mortos, George assume funções de detetive, Fran utiliza disfarces durante os sequestros e Arthur construiu uma vida respeitável sobre um passado enterrado. A busca pelo desaparecido remete a 39 Degraus e A Mulher Oculta, enquanto a relação entre crime, desejo e dinheiro recorda Ladrão de Casaca e Marnie, Confissões de uma Ladra. Até os cemitérios e túmulos espalhados pela história são tratados com uma irreverência próxima de O Terceiro Tiro. Hitchcock revisita temas conhecidos sem a solenidade de quem pretende resumir a própria carreira; parece simplesmente disposto a brincar mais uma vez com eles.

Isso não significa que o suspense tenha desaparecido. A sequência em que George e Blanche descem uma estrada montanhosa dentro de um carro sem controle é uma demonstração particularmente divertida da capacidade de Hitchcock de misturar perigo e comédia física. O casal alterna desespero, acusações e movimentos desajeitados enquanto o veículo ameaça despencar a qualquer momento, tornando a sobrevivência quase uma gag prolongada. Quando as duas tramas finalmente se encontram, a leveza começa a conviver com ameaças mais concretas, mas o filme nunca abandona completamente seu espírito brincalhão. Até sequestros, assassinatos e cadáveres parecem fazer parte de uma enorme farsa na qual os personagens continuam improvisando até que alguém finalmente descubra o roteiro.

Essa descontração também explica algumas limitações. Trama Macabra não possui a precisão visual dos grandes Hitchcock, e sua narrativa deliberadamente sinuosa apresenta trechos nos quais a investigação perde impulso. Arthur e Fran são mais interessantes como conceito do que como ameaça verdadeiramente assustadora, enquanto algumas coincidências necessárias para aproximar os personagens deixam evidente a mão do roteirista. Ainda assim, o elenco impede que a leveza se transforme em indiferença. Harris e Dern especialmente compreendem que o filme funciona melhor quando suspense e absurdo permanecem inseparáveis, enquanto Devane oferece a elegância necessária para que Arthur pareça pertencer à longa tradição hitchcockiana de criminosos cuja boa aparência social funciona como perfeito esconderijo.

É impossível assistir a Trama Macabra hoje sem pensar que se trata do último filme de Alfred Hitchcock, embora nada indique que tenha sido concebido como despedida. Talvez justamente por isso seu encerramento tenha adquirido uma beleza inesperada. Depois que Blanche aparentemente encontra aquilo que procurava graças a uma intuição que coloca em dúvida até onde ia sua fraude, ela se volta para a câmera e pisca diretamente para nós. O gesto transforma o espectador em cúmplice pela última vez. Como conclusão de uma carreira marcada por assassinatos, falsos culpados, identidades trocadas e manipulação do público, dificilmente poderia existir imagem mais apropriada. Trama Macabra não é um último grande golpe de mestre, mas funciona como uma saída de cena afetuosa e maliciosa: Hitchcock termina fazendo exatamente aquilo que sempre fez tão bem, enganando o público e sorrindo porque sabemos que fomos enganados.

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