Velozes & Furiosos 9

(2021) ‧ 2h23

24.06.2021

“Velozes & Furiosos 9”: Frenesi e familiaridade

Com Velozes & Furiosos 9, a franquia continua sua trajetória de exageros e acrobacias cada vez mais surreais. O filme já não busca uma conexão com a realidade, mas sim abraça a fantasia em um universo onde as leis da física e a própria mortalidade parecem ser sugestões vagas. Para quem acompanha essa saga há mais de duas décadas, fica claro que os filmes não são sobre enredos complexos ou desenvolvimento de personagens. O que move a série é a ação desenfreada e o conceito de “família”, que, aqui, começa a perder força.

Após um início que remete aos anos 1980, com flashbacks do jovem Dom (Vinnie Bennett) e seu irmão Jakob (Finn Cole), somos rapidamente transportados para os dias atuais. Agora aposentado, Dom (Vin Diesel) vive tranquilamente com Letty (Michelle Rodriguez) e seu filho, até que uma nova missão irrompe essa calmaria. O retorno de Jakob, vivido por John Cena, traz à tona um conflito familiar, com cenas de ação extravagantes servindo como pano de fundo para a rivalidade entre os irmãos.

A narrativa de Velozes & Furiosos 9 é, como esperado, caótica. A trama gira em torno de um dispositivo de dominação mundial que precisa ser montado antes que caia nas mãos erradas. No entanto, seguir os detalhes desse enredo é quase uma tarefa fútil, já que o foco está nas cenas de ação exageradas, como carros sendo lançados ao espaço e perseguições que desafiam qualquer senso de realidade. A série se afastou do clima de corrida de rua dos primeiros filmes e, ao invés disso, se transformou em uma ópera de explosões.

É inegável que a franquia abraçou completamente o absurdo, e há um certo charme nisso. Aceitar que Velozes & Furiosos 9 se passa em um mundo onde os protagonistas são praticamente super-heróis é essencial para apreciar o filme. Aqui, ninguém morre de verdade, como evidenciado pelo retorno do personagem Han (Sung Kang), cuja “ressurreição” desafia qualquer explicação lógica. Mas a lógica nunca foi o ponto forte dessa franquia, e o público que assiste já está ciente disso.

Infelizmente, mesmo com essa aceitação, o filme carece de ritmo na sua primeira hora. A primeira metade de Velozes & Furiosos 9 é tediosa, com muitas cenas de diálogos rasos e momentos que tentam, sem sucesso, criar suspense. Apenas nos últimos 45 minutos é que o filme entrega a adrenalina esperada, com uma sequência de ação frenética que envolve todos os personagens. No entanto, o clímax deixa alguns pontos soltos, claramente preparativos para a sequência, Velozes & Furiosos 10.

Outro ponto fraco de Velozes & Furiosos 9 é a falta de química entre os personagens. A dinâmica de “família” que sempre foi o coração da franquia parece estar esgotada. Vin Diesel, apesar de ser o protagonista, atua de maneira robótica, e John Cena não consegue trazer muita profundidade ao antagonista Jakob. Mesmo o relacionamento entre Dom e Letty, outrora cheio de paixão, parece ter se transformado em uma parceria plácida. O trio cômico de Roman, Tej e Ramsey funciona como alívio cômico, mas sem grande impacto no desenvolvimento da trama.

Os vilões também não conseguem se destacar. Jakob tem um desenvolvimento superficial, e Otto, o “herdeiro vilão”, é tão genérico que não consegue transmitir qualquer ameaça real. Enquanto isso, Cipher, vivida por Charlize Theron, é relegada a um papel secundário, passando a maior parte do filme em uma cela, oferecendo algumas falas mordazes, mas sem o brilho necessário para elevar o conflito. A ausência de um antagonista realmente memorável é sentida ao longo de todo o filme.

Apesar das falhas, Velozes & Furiosos 9 é exatamente o que muitos esperam: uma grande dose de ação absurda com uma história de fundo meramente funcional. Se você procura por complexidade, talvez já tenha abandonado a franquia há tempos. Mas para aqueles que se deleitam em ver carros voando, explosões em sequência e uma equipe que desafia a lógica e a gravidade, o filme entrega exatamente o que promete.

No fim, Velozes & Furiosos 9 é um lembrete de que, apesar da repetição, ainda há um público para essas aventuras exageradas. A fórmula pode estar desgastada, mas enquanto houver interesse, a série continuará. Seja pela nostalgia, seja pela ação insana, o filme cumpre seu papel, mesmo que de forma previsível e, em alguns momentos, cansativa.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTRAS CRÍTICAS

Noel Rosa: Um Espírito Circulante

Noel Rosa: Um Espírito Circulante

Mais do que contar a história de um dos maiores nomes da música brasileira, Noel Rosa: Um Espírito Circulante encontra maneiras de reencarnar o compositor nas vielas, bares e calçadas de Vila Isabel. O documentário de Joana Nin não se prende a uma cronologia nem ao...

Caindo na Real

Caindo na Real

Em Caindo na Real temos o prazer de rever Maria Clara Gueiros, que interpreta Marlene, mãe do Príncipe Maurício (Vitor Lamoglia), sendo a vilã, não tão má, do longa. A trama se passa em um Brasil imaginário onde Tina, interpretada por Evelyn Castro (Porta dos Fundos),...

Jessica Jones – 1ª Temporada

Jessica Jones – 1ª Temporada

A primeira temporada de Jessica Jones mergulha em um território pouco explorado pelas adaptações de quadrinhos, apresentando uma história sombria, adulta e profundamente psicológica. Acompanhamos Jessica (Krysten Ritter), uma ex-super-heroína que agora atua como...