Velozes & Furiosos 5 – Operação Rio

"Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio" perpetua o machismo da série até aqui

06.05.2011 │ 12:01

06.05.2011 │ 12:01

"Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio" perpetua o machismo da série até aqui

Um filme sobre carros que agora está mais para um filme de ação “clássico”, com mais homens do que carros correndo. Uma evolução que acontece no quinto filme da sequência. Só isso já diz muito, sobre muita coisa.

“Velozes e Furiosos” tem um roteiro fraco. As curtas cenas iniciais vem com o intento de reapresentar os personagens e situar o expectador na sequência, para que ele possa, mesmo assim, não entender como os protagonistas vem parar no Brasil. Seguindo a lógica do roteiro: você faz algo errado em Los Angeles, sua segunda opção no mundo não poderia ser outra que não as favelas do Rio de Janeiro. O conflito do primeiro ato é apresentado de forma rápida e confusa, pressupondo-se que o espectador já sabe que o trio Vin Diesel, Paul Walker e Jordana Brewster são os bandidos mocinhos da história e isso é tudo que se precisa saber. O romance não explicado, porém previsível, entre Dominic Toretto e a policial brasileira Helena Neves (Elsa Pataky), unidos na dor da perda do parceiro amado para as forças do mal e pela fé cristã. A mulher “gostosa”, guerreira e, mesmo assim, objeto/maria gasolina (perfeitamente ilustrada na personagem de Gal Gadot). O soundtrack como estímulo emocional predominante. Até aí, acredite, tudo bem. Não passa do mais que esperado.

Então, insistentemente desagradáveis, as consequência da locação hipotética do filme, o Brasil, aparecem. Todas se resumem em duas palavras irmãs: preconceito e ignorância. Os responsáveis pelo casting preferiram, ao invés de contratar atores brasileiros, o português com sotaque estadunidense (ou, pior, o de uma dublagem horrenda) e concluíram que o estereótipo do latino-americano espanhol era indistinto do nosso. Mãe brasileira não fala “Mi filhinho” e “tudo bom” não é “tudo bem”. O Leblon, apenas o bairro mais nobre da Zona Sul, é o bairro pobre onde ficam uma das bases do vilão, o brasileiríssimo HERNAND Reis, cujas empregadas trabalham só de lingerie, algo corriqueiro por aqui. O pior, entretanto, foi a visão passada ao espectador de que no país, ao contrário do que acontece nos EUA, a criminalidade é completamente impune e a polícia não só é inteiramente corrupta (salvo a oficial Helena Neves, “motivada” pela morte do marido, policial honesto, em serviço), como a sede do batalhão é onde o vilão pode guardar todos os seus dólares (ah, sim, no Brasil, usuários de drogas pagam em dólar) do roubo por outros criminosos, com direito a reforço policial no local. O ponto culminante é o momento em que o gigante (literalmente, trata-se de Dwayne Johnson) do FBI interrompe um dos eventos sociais mais famosos do Rio: o animado encontro dos praticantes de “racha”. Ao receber voz de prisão, Dominic Toretto alega que Hobbs não sabe se lembra de onde está e grita “This is Brazil!”, no que favelados com inglês fluente sacam suas armas e fazem os policiais baterem em retirada. O mais irônico é que exatamente a mesma coisa não o impediu de invadir a favela numa cena anterior.

Daria uma estrela, pela produção, no entanto a placa porto-riquenha de “Bienvenidos”, o boneco no carro detonado pelo grande cofre arrastado pela ponte (sim.) aparecendo ao fundo (para você, que não sabe, a distância mínima para se filmar um boneco num filme “realista” é aquela em que o boneco já não pode ser identificado como tal, salvo se for esse o intuito) e a impossibilidade de um deserto como o do Arizona (onde foi filmada A cena de ação do longa) nas condições climáticas do Estado do Rio de Janeiro não me deixaram.

Mantive meia estrela porque reconheço quando um filme cumpre a sua proposta: o público de machistas acéfalos (perdão pela redundância), de ambos os sexos, atraídos por carros, mulheres raquíticas (sinceramente, esse ideal de beleza feminina já vem sido banido das passarelas) e/ou homens dispostos em hierarquias em que o grau de desenvolvimento de massa muscular dita o grau de poder, vai sair do cinema dizendo que adorou e, quiçá, fazer o seguinte comentário, já na porta: “Não sabia que tinha tantas palmeiras no Rio. Nem que o tráfico (não, não querendo falar do comércio ilegal de drogas, gente) era tão calmo assim.”.

Gosto de pensar que o sonoplasta era brasileiro e se aproveitou do desconhecimento da língua portuguesa por todos os seus companheiros de trabalho, porque não consigo acreditar que as músicas foram selecionadas senão com o propósito de denegrir o roteirista e o diretor.

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