Contos de Terramar marca a estreia de Goro Miyazaki na direção e já chega carregado de expectativas por carregar o nome do Studio Ghibli e, sobretudo, pela sombra de seu pai, Hayao Miyazaki. Inspirado nos livros de Ursula K. Le Guin, o filme tenta adaptar parte do vasto universo literário, mas o resultado final revela um desequilíbrio entre a beleza da animação e a força narrativa que a obra exigia.
A abertura impactante, com o assassinato de um rei pelo próprio filho, Arren, prepara o terreno para um enredo que mistura fantasia, crise existencial e forças sombrias. O jovem príncipe, atormentado por uma energia misteriosa que o leva a atos de violência, encontra no mago Sparrowhawk não apenas um guia, mas um mentor que percebe a desordem no equilíbrio de Earthsea. A relação entre mestre e aprendiz deveria carregar o peso emocional da trama, mas muitas vezes soa superficial e pouco explorada.

O vilão Cob, andrógino e obcecado pela imortalidade, encarna o conflito central contra as forças da natureza, um tema recorrente nos trabalhos do estúdio. No entanto, sua presença, embora visualmente marcante, carece de densidade dramática. Há um esforço em trabalhar temas como a aceitação da morte e o confronto com os próprios medos, mas a execução simplifica conceitos que poderiam ser muito mais profundos.
Visualmente, o longa é impressionante. As paisagens pintadas à mão e a atmosfera pastoral evocam a tradição do estúdio, com alguns momentos de computação gráfica usados em cenas mais complexas. Contudo, por mais que o design seja belo, a narrativa arrastada e a falta de humor ou paixão tornam a experiência distante. A sensação é de contemplar um quadro magnífico, mas sem conseguir se conectar de fato com a história que é mostrada.
Outro problema é o excesso de informações soltas. Fala-se sobre equilíbrio, dragões e o papel de Arren nesse universo, mas sem que o espectador consiga compreender completamente o peso desses elementos. Para quem não conhece os livros de Le Guin, o filme pode parecer um recorte de uma saga muito maior, deixando lacunas e a impressão de que estamos diante de um prólogo sem continuação.

Apesar das fragilidades, há momentos que se salvam, como a vida simples no refúgio com Tenar e Therru, que conferem certa humanidade à narrativa. Além disso, a canção final, em japonês, é um dos instantes mais emocionantes, evocando uma melancolia que o filme raramente alcança em sua trama. Esses lampejos mostram que havia potencial para algo mais coeso e tocante.
No fim, Contos de Terramar é uma estreia irregular. Se por um lado exibe a qualidade estética inegável do estúdio, por outro revela a inexperiência de Goro Miyazaki no manejo de uma adaptação complexa. O resultado é belo, mas frio, e deixa no ar a sensação de oportunidade perdida. Talvez, com o tempo e a maturidade, Goro encontre uma voz própria, capaz de honrar tanto o legado do estúdio quanto o universo literário que tentou recriar.





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