Porco Rosso: O Último Hetói Romântico

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"Porco Rosso": O herói improvável de Miyazaki

Porco Rosso: O Último Herói Romântico é um dos filmes mais singulares de Hayao Miyazaki, justamente por situar sua fantasia em um recorte histórico preciso: a Itália dos anos 1930, entre as duas guerras mundiais. Ainda que exista um elemento fantástico evidente — um piloto amaldiçoado que ganha feições de porco —, a obra se ancora em um contexto real, de caçadores de recompensas enfrentando piratas aéreos no Mar Adriático. O resultado é uma aventura leve e nostálgica, mas também carregada de melancolia e romance.

Marco Porcellino, mais conhecido como Porco Rosso, é um personagem fascinante. Transformado por um feitiço misterioso, ele vive no limiar entre o cínico e o idealista, escondendo seu passado e fugindo de compromissos emocionais. Sua aparência porcina é metáfora de seus próprios conflitos internos: um homem desencantado com a humanidade, que insiste em se definir como “um porco” para justificar falhas e desencantos. Essa camada simbólica é uma das grandes forças do filme.

Miyazaki transforma a aviação — sua paixão pessoal — no coração da narrativa. O filme é repleto de sequências aéreas que remetem aos seriados de aventura dos anos 1930, com combates estilizados e movimentos fluidos que transmitem uma sensação de liberdade. Mas entre cada voo, há também espaço para introspecção e reflexão, como na relação de Porco com Gina, cantora e dona do Hotel Adriano, cuja presença evoca ecos de clássicos como Casablanca.

A chegada da jovem Fio, encarregada de reconstruir o avião de Porco, insere outra camada fundamental. Com sua determinação e talento, ela desafia o protagonista, rompe expectativas e simboliza o olhar feminista recorrente na obra de Miyazaki. O contraste entre o ceticismo do piloto e o entusiasmo da jovem cria um dos diálogos mais ricos do filme, ressaltando tanto a transformação do herói quanto a mensagem de que a coragem pode vir de onde menos se espera.

O visual é deslumbrante. A recriação da paisagem mediterrânea, com sua luz dourada e cores quentes, dá ao filme uma atmosfera quase idílica, que contrasta com a sombra crescente do fascismo na Europa. Esse pano de fundo político não é mero detalhe: Porco se define como apolítico, mas não hesita em afirmar que prefere ser um porco a ser um fascista, em uma das frases mais memoráveis de toda a filmografia de Miyazaki.

O clímax, com a luta entre Porco e o arrogante Curtis, mistura humor, ação e romance em doses perfeitas. Não importa tanto o resultado do duelo, mas sim a maneira como ele reafirma a humanidade escondida por trás da máscara do protagonista. É nesse equilíbrio entre aventura escapista e metáfora existencial que o filme encontra sua identidade.

Lançado em 1992, Porco Rosso: O Último Herói Romântico pode não ter alcançado a mesma popularidade de obras como A Viagem de Chihiro ou Princesa Mononoke, mas permanece como um dos filmes mais autorais e encantadores de Miyazaki. É uma carta de amor à aviação, uma reflexão sobre desencanto e esperança e, acima de tudo, um romance delicado sobre encontrar humanidade nos lugares mais improváveis.

Conheça os demais filmes do estúdio

Clique nos pôsteres para ler nossa crítica sobre o filme.

Nausicaä do Vale do Vento
(1984)

O Castelo no Céu
(1986)

Meu Amigo Totoro
(1988)

Túmulo dos Vagalumes
(1988)

O Serviço de Entrega da Kiki
(1989)

Memórias de Ontem
(1991)

Porco Rosso: O Último Hetói Romântico
(1992)

Eu Posso Ouvir o Oceano
(1993)

Pom Poko: A Grande Batalha dos Guaxinins
(1994)

Sussurros do Coração
(1995)

Princesa Mononoke
(1997)

Meus Vizinhos, os Yamadas
(1999)

A Viagem de Chihiro
(2001)

O Reino dos Gatos
(2002)

O Castelo Animado
(2004)

Contos de Terramar
(2006)

Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar
(2008)

O Mundo dos Pequeninos
(2010)

Da Colina Kokuriko
(2011)

O Conto da Princesa Kaguya
(2013)

Vidas ao Vento
(2013)

As Memórias de Marnie
(2014)

A Tartaruga Vermelha
(2016)

Aya e a Bruxa
(2020)

O Menino e a Garça
(2023)