Aya e a Bruxa

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"Aya e a Bruxa": Uma nova forma para a magia do Studio Ghibli

Aya e a Bruxa marca um momento de ruptura dentro da trajetória do Studio Ghibli. Conhecido por sua tradição na animação artesanal em 2D, o estúdio surpreendeu ao lançar sua primeira produção inteiramente em computação gráfica. A mudança gerou desconfiança imediata entre fãs e críticos, que consideraram quase um sacrilégio ver o estúdio abandonando sua estética clássica. No entanto, por trás dessa escolha existe mais continuidade do que revolução: o estúdio já vinha explorando o digital em pequenas doses desde Princesa Mononoke e até havia produzido uma série de TV em 2014, Sanzoku no Musume Rōnya.

A história acompanha Aya, uma menina órfã de espírito indomável, adotada pela bruxa Bella Yaga e levada para uma casa cheia de mistério e magia. Curiosa e destemida, a garota rapidamente percebe que sua nova vida não será apenas encantamentos e truques mágicos, mas também um confronto direto com uma figura autoritária que a explora. Com a ajuda de um gato falante, Aya passa a aprender feitiços e a desvendar sua própria origem mágica.

Visualmente, o filme é onde mais se nota o choque com a tradição. Enquanto os cenários são detalhados e mantêm a delicadeza característica do estúdio, os personagens apresentam uma aparência plastificada e rígida, lembrando produções de computação gráfica do início dos anos 2000. Essa estranheza pesa, principalmente para quem associa o estúdio à fluidez calorosa do traço manual. Não é à toa que muitos consideraram o estilo próximo de um produto televisivo, o que de fato se explica pela origem do projeto: ele foi inicialmente desenvolvido para a TV japonesa antes de ganhar um lançamento mais amplo.

Ainda assim, o espírito do estúdio não desaparece. A direção de Goro Miyazaki, filho de Hayao Miyazaki, preserva o encanto narrativo, as cores vibrantes e a fantasia cotidiana que marcam as grandes obras do estúdio. Assim como em O Castelo Animado ou O Mundo dos Pequeninos, a trama é baseada em um livro infantojuvenil britânico, e carrega os arquétipos que já se tornaram familiares: a criança corajosa, a bruxa enigmática e, claro, o gato falante que rouba cenas — lembrando imediatamente clássicos como O Serviço de Entregas da Kiki.

O enredo, mais leve e direto do que em outros filmes do estúdio, é claramente voltado ao público infantil. Aya é uma protagonista esperta e carismática, capaz de manter a atenção do espectador mesmo quando a trama se repete em situações de aprendizado mágico e confrontos com Bella Yaga. Para os adultos, talvez falte a profundidade filosófica de obras como A Viagem de Chihiro ou O Conto da Princesa Kaguya, mas há humor, ritmo e um charme que tornam a experiência acessível.

É importante destacar como Aya e a Bruxa lida com a tradição e a renovação. Se por um lado decepciona quem esperava a sofisticação visual de outros títulos do estúdio, por outro, funciona como uma tentativa ousada de manter o estúdio vivo e relevante em novos formatos. A essência das histórias sobre amadurecimento, coragem e identidade permanece, mesmo que a embalagem seja diferente.

No fim, o filme pode não alcançar a grandeza dos clássicos, mas entrega um conto divertido e espirituoso. Aya e a Bruxa prova que a magia do estúdio não está apenas na técnica de animação, mas também na capacidade de criar mundos cativantes e personagens memoráveis. Não é uma obra-prima, mas é uma experiência que, apesar das controvérsias, mantém acesa a chama de um estúdio que sempre ousou sonhar.

Conheça os demais filmes do estúdio

Clique nos pôsteres para ler nossa crítica sobre o filme.

Nausicaä do Vale do Vento
(1984)

O Castelo no Céu
(1986)

Meu Amigo Totoro
(1988)

Túmulo dos Vagalumes
(1988)

O Serviço de Entrega da Kiki
(1989)

Memórias de Ontem
(1991)

Porco Rosso: O Último Hetói Romântico
(1992)

Eu Posso Ouvir o Oceano
(1993)

Pom Poko: A Grande Batalha dos Guaxinins
(1994)

Sussurros do Coração
(1995)

Princesa Mononoke
(1997)

Meus Vizinhos, os Yamadas
(1999)

A Viagem de Chihiro
(2001)

O Reino dos Gatos
(2002)

O Castelo Animado
(2004)

Contos de Terramar
(2006)

Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar
(2008)

O Mundo dos Pequeninos
(2010)

Da Colina Kokuriko
(2011)

O Conto da Princesa Kaguya
(2013)

Vidas ao Vento
(2013)

As Memórias de Marnie
(2014)

A Tartaruga Vermelha
(2016)

Aya e a Bruxa
(2020)

O Menino e a Garça
(2023)