A Viagem de Chihiro é, acima de tudo, uma experiência sensorial e emocional rara no cinema de animação. Dirigido por Hayao Miyazaki, o longa mergulha o espectador em um universo que parece brotar dos sonhos mais vívidos da infância, mas com camadas de simbolismo que só a maturidade é capaz de decifrar. É uma história de amadurecimento contada com a delicadeza que caracteriza a obra do Studio Ghibli, onde o fantástico não é só pano de fundo, mas parte essencial da construção emocional da protagonista.
A jornada de Chihiro começa com tédio e descontentamento diante de uma mudança forçada. É curioso como Miyazaki transforma essa atitude — comum a tantas crianças — no gatilho para uma das aventuras mais ricas do cinema. Ao atravessar o túnel com os pais e adentrar um mundo habitado por espíritos, deuses, monstros e criaturas das mais diversas formas, Chihiro não apenas se perde, mas é obrigada a se reinventar para sobreviver e, mais tarde, reencontrar aquilo que ama.

O mundo espiritual de A Viagem de Chihiro tem ecos claros de Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz, mas é profundamente japonês em sua iconografia e filosofia. Aqui, o estranho não é apenas excêntrico — ele carrega história, dor, humor e empatia. A cada personagem que encontra — como Haku, Lin, Kamaji ou o Sem Rosto — Chihiro aprende algo sobre coragem, trabalho, amizade ou compaixão. A transformação é lenta, mas contínua, e nunca imposta: ela cresce por mérito próprio.
Visualmente, o filme é um espetáculo. A animação desenhada à mão é de uma riqueza quase palpável, e os cenários — especialmente o balneário onde se passa grande parte da trama — são meticulosamente detalhados. Não se trata apenas de um ambiente fantástico, mas de um lugar com regras próprias, rotinas e hierarquias. E mesmo nas sequências mais grandiosas, como a purificação do espírito do rio, há um cuidado com a composição e o ritmo que confere poesia ao movimento.
Como em outras obras de Miyazaki, há uma forte presença de mensagens ecológicas e críticas ao consumismo e à ganância. O episódio do espírito poluído, que surge coberto de lama e lixo até revelar sua verdadeira essência, é um dos momentos mais simbólicos do longa — e um dos mais emocionantes também. Mas o filme nunca soa panfletário: suas lições são transmitidas com sutileza e beleza, sem precisar levantar a voz.

Outro mérito de A Viagem de Chihiro é não subestimar seu público. Apesar de ter como protagonista uma menina de 10 anos, a obra não se contenta em entreter apenas os pequenos. Seus temas — identidade, crescimento, memória, perda — ressoam com força em qualquer idade. A narrativa é mais pausada que a média das animações ocidentais, mas nunca se arrasta: cada cena contribui para a construção emocional do todo, sem pressa, como quem convida o espectador a realmente viver aquela jornada.
No fim, A Viagem de Chihiro não é só uma fábula sobre uma menina presa em um mundo mágico. É um convite a se perder — e a se encontrar — em meio ao desconhecido. Um lembrete de que crescer é, muitas vezes, aprender a cuidar dos outros e de si mesmo, mesmo quando tudo parece estranho, assustador ou incompreensível. Um clássico moderno, cuja magia não está só no que se vê, mas no que se sente muito tempo depois que os créditos finais sobem.




























