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Resenha: "O Doador de Memórias" se distancia um pouco do livro, mas isso não é ruim



“O Doador de Memórias” é mais simples e cru do que o resto das distopias adolescentes de hoje em dia, que tentam explicar o plano de fundo que levou aquele momento da “história” nos mínimos detalhes e ainda nos fazem engolir triângulos amorosos desnecessários (Lois Lowry publicou seu romance em 1993, o que torna os personagens de “O Doador de Memórias” parentes mais velhos de “Jogos Vorazes” e “Divergente”).



A história começa quando, depois de várias gerações, a humanidade descobriu uma forma de viver em paz e assim resolveu apagar suas memórias. No processo, deixou-se de mentir, sentir e ver cores e o humor de todos é controlado com medicação todas as manhãs. Graças a todas as abdicações, não há medo, não há ódio, inveja, violência e nenhum risco. Em suma, é o sonho de todos os pais.



Adolescentes de hoje, é claro, odiariam perder toda a futilidade que adoram mostrar nas redes sociais, por exemplo. Mas nessa “realidade” apenas Jonas, é que começa a aprender o que essa sociedade está perdendo. Ele foi nomeado o receptor de memórias – o sábio que usa os erros do passado para aconselhar os líderes do presente – e seu treinador, o tal doador do título (que é interpretado por Jeff Bridges) é o responsável por mostrar tudo ao menino.



O diretor Phillip Noyce utiliza-se de algumas montagens muito bem colocadas para mostrar o medo de Jonas ao se confrontar com nossos erros de hoje. O filme vai, aos poucos, perdendo a saturação de um belo preto-e-branco e chega às cores de maneira muito bela. Mas há várias diferenças entre essa adaptação e o livro. O que já era de se esperar. Afinal, o livro é cheio de nuances e sutilezas que não são tão vendáveis como os produtores hollywoodianos desejam. Principal mostra é fazer da personagem de Meryl Streep (que mal aparecia no livro) muito mais importante.


As escolhas do diretor, embora focadas em vender mais ingressos, não se mostram errôneas. E embora Meryl Streep cite no filme que “quando as pessoas têm a liberdade de escolher, elas escolhem errado”, nesse caso isso não se aplica. Nem mesmo para os adolescentes que optarem por ver esse filme ao invés de alguma outra bomba que esteja no cinema ao lado.



Resenha: "Guardiões da Galáxia" - Mais um acerto da Marvel Studios



Enquanto Tony Stark está por aí sendo inteligente, rico e extravagante, Thor está em Asgard com seu drama familiar e Steve Rogers tenta se adaptar a um novo tempo, chega “Guardiões da Galáxia” para tirar o Universo Marvel da zona de conforto e levá-lo para os confins de uma galáxia distante. Este décimo filme do estúdio não é apenas bom, é ótimo, pois envereda para um novo território com uma sátira mordaz e pensamento radical.



O cosmos nunca mais será o mesmo novamente. Dirigido e co-roteirizado por James Gunn (que escreveu os horrorosos “Scooby-Doo” para a Warner), este filme de super-heróis é baseado no título de 1969, mas principalmente na fase de 2008 dos mesmos. Nessa fase, os roteiristas Dan Abnett e Andy Lanning, reinventaram os personagens, sua galáxia alienígena e deram uma roupagem mais moderna para a trama, dentro do Universo Marvel dos quadrinhos.



Mas ambas as versões (de 1969 e 2008) permaneciam na margem desse universo, como se fossem quadrinhos B em comparação com os demais heróis. Até agora. Esse filme divertido e cheio de ação, bem construído e bem executado, mudará essa realidade com certeza. Com seus anti-heróis o filme já começa bastante diferente dos demais longas de herói. E James Gunn teve seu principal acerto mostrando alguns pequenos flashbacks na vida de cada um dos personagens para nos fazer conectar a esses viajantes espaciais criminosos.

Embora não seja logo de cara, os “Guardiões da Galáxia” são liderados por um Chris Pratt deliciosamente insano, um órfão abduzido da terra. Peter Quill (ou como se denomina Senhor das Estrelas) é preso por roubo de um poderoso orbe, juntamente com uma assassina verde, chamada Gamora, um guaxinim geneticamente modificado e uma árvore humanóide chamada Groot. Na prisão eles encontram o musculoso Drax, o Destruidor. A equipe está montada. Com todos os desajustes entre cada um dos personagens é muito interessante assistir a química entre eles se formar. Mesmo que dois dos personagens sejam feitos totalmente por computação gráfica.



Apesar das desavenças os anti-heróis se unem para escapar da prisão, e essa trégua entre eles é que acabará por levar seu status a super-heróis. Afinal, há uma galáxia para salvar, mesmo que o motivo inicial seja dinheiro. Ronan, o acusador, Nebulosa e Korath estão atrás do orbe roubado por Peter Quill, e não bastasse isso, o Senhor das Estrelas ainda precisa escapar de seu raptor Yondu. A trama cheia de perseguições e reviravoltas sempre faz lembrar-se de “Star Wars”, que em 2015 também ganhará uma sequência.



O filme funciona porque em meio a toda essa correria há um desenvolvimento do caráter de seus personagens, mesmo que cheio de comédia e piadas super divertidas.

Quanto a parte técnica não há o que comentar. As criaturas digitais estão perfeitas e palpáveis. Os panos de fundo das batalhas estão lembrando uma pintura futurista e apesar disso não ofuscam os atores em cena. Benicio Del Toro chama atenção como seu Coletor e Josh Brolin (embora não creditado) dá voz ao Sr. do mal já mostrado na cena pós-créditos do primeiro “Vingadores”. Detalhe que ambos os personagens funcionam como ponte para o restante do Universo Marvel nos cinemas.



E por falar em Universo, será muito divertido quando “Guardiões” acabar cruzando com algum “Vingador”. Que venha a sua sequência já agendada para 2017.

P.S.: Há uma cena pós-créditos. Embora não tenham exibido a mesma após a sessão de imprensa, a mesma estará nas cópias normais do filme nos cinemas.



Resenha: "X-Men: Dias de um Futuro Esquecido" - o melhor filme dos mutantes até aqui...




Livremente adaptado do clássico das HQ’s, escrito por Chris Claremont, o maior nome das histórias de X-Men, “Dias de Um Futuro Esquecido” reúne os personagens mais conhecidos na série cinematográfica (Wolverine, Professor X, Tempestade, Kitty Pryde, Homem de Gelo, Colossus e Magneto) com alguns novos membros (Bishop, Warpath, Mancha Solar e Blink) em um futuro distópico, onde os robôs caçadores de mutantes (Sentinelas) praticamente exterminaram os mesmos. Os poucos que sobram, são encarcerados em campos de concentração, juntamente com os humanos que os ajudaram.

A única maneira que os X-Men acham para derrotar as Sentinelas é enviar um deles telepaticamente para o passado, a fim de impedir o assassinato que pavimentou o caminho para o holocausto mutante. Os fãs mais entendidos saberão que, nos quadrinhos, é Kitty Pryde quem viaja no tempo a fim de alertar seus companheiros de equipe. No filme, o argumento inicial é que apenas o Professor X é um telepata forte o suficiente para fazer o trabalho, mas já que ele não pode suportar fisicamente uma “viagem” como estas quem é enviado é Wolverine, que pode se regenerar na mesma medida que sua mente é destruída no processo.




Ao acordar em 1973, em seu corpo mais jovem, Logan deve procurar Xavier, que se tornou uma versão fracote do homem conhecido em “Primeira Classe”. Depois de todas as perdas que o mesmo teve, ele passou a última década lastimando-se por não poder andar. Com a perda de seus poderes, o único que permaneceu a seu lado foi Fera, cujo milagroso soro faz Xavier recobrar suas pernas, mas também o faz perder seus poderes psíquicos. Mas Charles não vê problemas nisso, uma vez que assim não precisa ouvir as vozes e sofrimentos de todos ao seu redor, depois de ser deixado por sua irmã de criação Mística e seu amigo Magneto.

Nesse passado, Mística mostra-se a chave para mudar o futuro. Ela está numa empreitada para assassinar o Dr. Bolivar Trask, que inventou as Sentinelas e vêm fazendo experimentos com os mesmos. A fim de rastreá-la e evitar que o DNA dela seja implantado nas sentinelas para incrementá-las, tornando-as indestrutíveis, eles precisarão de Magneto e Peter Maximoff (o Mercúrio). A partir daí, o filme torna-se uma corrida contra o tempo para parar Mística, restaurar a esperança de Xavier e impedir que os X-Men do futuro sejam aniquilados.




Este enredo se baseia em muitos conceitos já utilizados em várias ficções científicas, mas mesmo assim parecem renovados ao serem utilizados por Brian Singer (que dirigiu o primeiro dos filmes da franquia 14 anos atrás). Ele e o roteirista Simon Kinberg conseguem equilibrar os elementos com relativa pouca confusão e no processo tentam minimizar os vários furos que a franquia foi criando em sua cronologia ao longo de suas continuações.

Como aconteceu no reboot de J.J.Abrams para “Star Trek”, o filme dá a cada um de seus personagens algum momento importante. É muito inteligente, também, a forma como o filme conseguiu dar ainda mais destaque para as maiores estrelas do momento, principalmente Jennifer Lawrence (que ganhou um Oscar recentemente e chama muita atenção com sua atuação em “Jogos Vorazes”), mas sem deixar o elenco antigo de lado, criando uma visão saudosista sempre que os mesmos estão em tela.




Mas a maior surpresa do filme é, na verdade, o personagem que era o mais mal falado na internet durante a produção do longa: Mercúrio. Sim, Mercúrio é incrível, e na sua única cena ele nos faz babar com os efeitos da sequência. E isso é mais um exemplo de que não devemos julgar um livro pela capa.

As sequências de ação do filme num todo são extremamente bem arquitetadas e envolventes. Singer não se perde nesses momentos e o espectador sabe o que está acontecendo em cada uma das batalhas, mesmo estando povoada de mutantes e diferentes poderes.




“Dias de um Futuro Esquecido” não trás nada de novo ao gênero dos quadrinhos. Mas é um filme sólido e comprometido com sua própria franquia. Resolve os problemas deixados nos longas anteriores e cria brechas para um futuro brilhante. O filme permite que a série seja redefinida e levanta grandes questões de para onde X-Men, passado e futuro, podem ir a partir daqui.

O Veredicto
“X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” é o filme mais ambicioso dos mutantes no cinema e também o mais bem realizado.



Resenha: "Capitão América 2 - O Soldado Invernal" sedimenta o herói e o universo cinematográfico Marvel



Capitão América 2 - O Soldado Invernal, a continuação da história do Sentinela da Liberdade nos cinemas, estreia no Brasil no dia 10 de abril. E, olha, talvez seja a produção mais bem-sucedida como filme solo dentro da grande história que vem sendo contatada pelo Marvel Studios até agora: tem história de guerra, espionagem, ação de filmes policiais como dos anos 70 e, claro, a ficção científica e fantasia sempre presente nas revistas da Casa das Ideias. De quebra, o longa estabelece melhor o personagem e o próprio universo cinematográfico Marvel nos cinemas.

O filme acerta em quase tudo e o roteiro da dupla Christopher Markus eStephen McFeely consegue unir as principais ideias dos melhores arcos do personagem nos quadrinhos nas últimas décadas, com uma atualização pra lá de convincente. Pra começar, o contexto: o que um soldado como o Capitão América, deslocado de seu tempo, pode chamar de América nos dias de hoje? E pelo que, contra quem ele lutaria?



Bem, após os eventos do primeiro Capitão América: O Primeiro Vingador, muita coisa aconteceu. Não é exatamente necessário ter acompanhado todos os filmes, mas nada foi ignorado e conhecer a história até aqui ajuda a aproveitar melhor o longa. Desde a primeira aventura de Steve Rogers (Chris Evans), o Marvel Studios lançou Os Vingadores (2012), Homem de Ferro 3 (2013) e Thor: O Mundo Sombrio (2013) e estão agendados ainda na chamada “Fase 2” Os Guardiões da Galáxia (2014) e Os Vingadores: A Era de Ultron (2015). Homem-Formiga (2015) e Doutor Estranho (sem data definida) inauguram a Fase 3. Lembrando que anteriormente, já chegaram às telonas Homem de Ferro (2008), O Incrível Hulk (2008), Homem de Ferro 2 (2010) e Thor (2011).



Pois bem, Capitão América ainda não consegue dividir sua vida pessoal da “profissional” e atua como um agente especial da SHIELD. E é justamente em uma dessas missões é que o herói começar a questionar a organização, já que ações de Natasha Romanoff, mais conhecida com a Viúva Negra (Scarlet Johansson), evidenciam a existência de uma “agenda própria”. Paralelamente, Rogers desenvolve aos poucos amizade com outro ex-veterano de guerra, Sam Wilson (Anthony Mackie).

Ao encarar Nick Fury (Samuel L. Jackson) e o chefão da SHIELD, Alexander Pierce (Robert Redford), para saber mais sobre suas missões, Rogers começa a ser perseguido e vê o próprio Fury em perigo. E aí começa a ação que não para mais até o último minuto do filme – inclusive depois, com direito a duas cenas extras após os créditos, portanto, fique na poltrona após a exibição.



A trama é especialmente muito boa porque, desde o primeiro filme, há essa intenção de tirar o ranço ultrapatriota que sempre acompanhou o personagem e afasta parte do público. O Capitão América não está lutando somente pelos Estados Unidos – pelo contrário, no longa anterior e neste, ele sempre está questionando as atitudes do próprio país – e sim pela liberdade e justiça.



A caracterização do mundo em que Capitão América luta é uma grande sacada dos diretores Anthony e Joe Russo. Há uma constante incerteza de quem está do lado certo, da paranoia no melhor estilo 1984, da vigilância constante. É o “ground level” do Marvel Studios, um lado bem mais realista e obscuro que os outros cantos mostrados até agora. Saem os heróis coloridos e entram as conspirações e vilões impiedosos, que se levam realmente a sério e têm motivações verossímeis.

Um desses vilões é justamente o Soldado Invernal – que muitos já sabem de antemão a conexão com o protagonista – e seu papel em um esquema muito maior. O que se vê então é Capitão América usando seus aliados, o Falcão e Viúva Negra, contra um plano diabólico que envolve a própria SHIELD e seu passado.



Em termos técnicos, há ação pra tudo quanto é gosto: vemos o Capitão fazendo infiltração em grande estilo, esbanjando pancadaria e efeitos especiais convincentes. Perseguição com veículos, cenas aéreas, mais pancadaria e, principalmente, muita porrada com o escudo, o verdadeiro e fiel amigo de Rogers. Também há muito espaço para as habilidades de Natasha e Wilson. A trilha sonora mantém o constante clima de tensão, tanto é que nos créditos há apenas duas canções, o restante são “músicas” para manter o ambiente nessa atmosfera.



O desenvolvimento dos personagens é muito bom. Todos estão muito à vontade em seus papeis, com destaque para o próprio Evans, Johansson e, especialmente, Mackie, que caiu como uma luva no Falcão. Há muitos diálogos, que, apesar de rápidos e simples, acrescentam muito à personalidade de cada um, principalmente quando eles trazem à tona a característica essencial das revistas e dos filmes Marvel, o humor.

Redford também dá o ar setentista à película e faz o papel perfeito de burocrata e líder. Sobra um até um cantinho para Emily VanCamp no papel da Agente 13 e também para Cobie Smulders e Hayley Atwell, que reprisam seus os papeis de Maria Hill e Peggy Carter, respectivamente.



Com relação ao universo cinematográfico Marvel, esta sequência faz tudo o que faltou a Homem de Ferro 3 e Thor: O Mundo Sombrio: a cada meia hora há alguma menção aos outros heróis – seja o Homem de Ferro, o Hulk e até mesmo um outro personagem que não vinha sendo citado até agora e deve ser uma surpresa para os fãs. Rostos conhecidos da série Agents of SHIELD também estão ali, assim como eventos da tevê. E até mesmo o papel de Peggy Carter, cogitada para ter uma série própria, é revelado, o que justifica (e bem) a vontade da Casa das Ideias em desenvolver melhor a heroína em outra mídia.

As homenagens aos quadrinhos estão em toda a parte (conto aqui neste post algumas das ligações e easter eggs que identifiquei) e a sensação que temos é a de que o Marvel Studios conseguiu concretizar o Capitão América como o herói que será a referência para o futuro de suas outras histórias.

Obviamente, o filme conta com alguns clichês (como os heróis que têm aparência de vilão e depois se mostram realmente vilões e vice-versa), algumas sequências de ação mentirosas e uma certa pieguice desnecessária no final. Porém, essas “falhas” chegam a ser tão irrelevantes que podemos chamar de “charme” do universo Marvel.

VEREDITO: Se é preciso caminhar antes de poder voar, Capitão América: O Soldado Invernal conquista sua base na Terra e mostra o universo cinematográfico Marvel em sua melhor forma, antes de ir para o espaço. Se alguém não gostava do Capitão América e não sabia porque ele é tão foda, pode tratar de engolir as palavras a partir de agora.


Resenha: "Rio 2 - Um cartão postal do Brasil"




Como diz a música: o Rio de Janeiro continua lindo, e o visual de “Rio 2”, sequência do longa de 2011, também. Não leva quatro minutos para “Rio 2” se diferenciar totalmente do que o estúdio fez em todos “Era do Gelo”. A floresta atlântica que ainda resta no Rio de Janeiro aparece cheia de papagaios, macacos, cacatuas e tucanos, cantando e dançando um samba em uma sequência colorida de voo.




É a partir daí que o show visual começa. Piadinhas bem colocadas, coloridos de tirar o fôlego e uma animação com texturas que se assemelham ao realismo das melhores paisagens brasileiras. “Rio 2” é, até aqui, o trabalho da Blue Sky com maior possibilidades de ser comparado com o estilo Pixar de ser.




O filme continua cheio de mensagens ecológicas e politicamente corretas. Deixamos a crítica sobre o comércio ilegal de animais de lado, e vemos um pouco sobre o desmatamento ilegal da Amazônia. Passamos ainda por uma jornada existencial de Blu tentando aceitar sua nova situação perante o pai de Jade. Fica aí a única falha do filme. Entrelaçar tudo isso, em meio a alguns números musicais, trouxe uma sensação de urgência e faltou um pouco de desenvolvimento do roteiro para dar uma maior fluidez as passagens das situações.




Mas em tempos de Copa do Mundo, “Rio 2” pode ser usado como um belo cartão de visitas do nosso país. Vamos do Rio à Ouro Preto, passamos por Brasília e Salvador, chegando então à Manaus. Mostramos (mesmo que seja somente em uma animação) que o Brasil não é somente carnaval. Embora os inúmeros musicais ao longo do filme descordem um pouco disso.



Perspectiva ateniense da guerra decepciona em "300 – A Ascensão do Império"



Em cartaz nos cinemas de todo o País desde o último final de semana a sequela 300 – A Ascensão do Império, que aborda novamente a histórica Batalha de Termópilas na guerra entre gregos e persas. Desta vez, porém, o espectador fica com a perspectiva ateniense do confronto.

Antes de mais nada, é bom lembrar porque é que essa continuação acontece, muito por causa do relativo sucesso do primeiro filme. 300 vem dos quadrinhos homônimos de Frank Miller, que interpretou à sua maneira a Batalha de Termópilas, oferecendo uma narrativa gráfica inteligente, sedutoral e visceral, assim com mais carisma ao rei Leônidas, protagonista da história sobre 300 soldados que resistiram bravamente a uma grande investida persa, cortesia do imperador Xerxes.



O primeiro longa foi bem-sucedido porque Zack Snyder pensa como um designer e tem grande apego pelas imagens e grafismos. Além do que, compreende a linguagem dos quadrinhos. Somado a isso, ele é de uma geração de diretores que produzem rapidamente e conseguem bons resultados com poucos recursos, a exemplo de Robert Rodriguez e Guillermo Del Toro.



O resultado foi um filme bom, uma adaptação à altura, com efeitos, cores e estilo que traduziram bem os quadrinhos nas telonas. A boa atuação de Gerard Butler - que imortalizou o berro “This is Sparta!” - também deve ser levando em consideração, pois assegurou mais carisma ainda a Leônidas. 300, que custou US$ 65 milhões, arrecadou mundialmente nos cinemas US$ 210 milhões e era de se esperar que uma sequência fosse produzida.



Dito isto, a comparação com o primeiro filme é inevitável. Este 300 – A Ascensão do Império conta então a mesma Batalha de Termópilas, mas vista pelo outro lado, pelo mar, afinal a investida persa aconteceu simultaneamente por terra e água. Sai Leônidas e entra Temístocles (Sullivan Stapleton) diante de Artemísia (Eva Green) e Xerxes (Rodrigo Santoro) ao fundo.



Logo no início é possível reconhecer os efeitos e o tipo de narrativa herdada do filme anterior, pois Snyder, mesmo não sendo o diretor da continuação, foi um dos produtores desta sequência. Então, a já conhecida ultraviolência estilizada e aquela narrativa com momentos de pausa e impacto impressionam, mais uma vez. Acredito que houve até um cuidado maior com relação ao som, tanto na trilha quanto nos efeitos sonoros. Achei os momentos de ação mais impactantes devido a isso. (Nota: a sessão que acompanhei foi num IMAX, não sei se em outras projeções há esse mesmo impacto).



Em seguida, a história já dá o tom de vingança ao filme: ao final da Batalha da Maratona, Temístocles assassina Dario, o pai de Xerxes, o que ocasiona uma interessante história sobre o nascimento do deus-rei. Porém, essa história é deixada de lado para dar mais destaque a Artemísia, uma grega rebelada.

Aí é que começam os problemas: Artemísia é uma clara criação de uma antagonista para Temístocles (uma “fêmea alfa” entre tantos “machos alfa”). Seu comportamento ao longo do filme, porém, é um tanto duvidoso, inverossímil para aquele contexto. Quando ela ganha motivações suficientes, os roteiristas decidem então “justificar” os outros personagens.



Temístocles, para não se passar por “banana” em comparação com Leônidas, ganha mais uma história de vingança em seu grupo, com uma história paralela de pai e filho. Todos esses “atos nobres” justificados com roteiro preguiçoso, personagens sem carisma e atuações apenas regulares, transformam então o restante da história previsível demais, a ponto de deixar o deleite visual insosso.



Uma das coisas que poderiam ser legais no filme foi justamente a que foi limada por responsabilidade de Frank Miller: o autor está em atraso (devido a compromissos com Sin City 2, em breve nas telonas também) com a minissérie que conta a transformação de Xerxes no deus-rei. Duas edições das cinco prometidas foram lançadas e a história deveria estar completa e lançada com 300: A Ascensão do Império. Se eles utilizassem justamente essa história que não foi lançada a tempo como parte do longa, talvez tivesse tido mais sucesso.

VEREDITO: Sexo e violência, sequências estilizadas com som de primeira, soldados homoeróticos e cenas quentes com Eva Green, coadjuvantes descartáveis, rei sem carisma e desfecho previsível.


Matéria: O Mundo Globalizado do Cinema de Espionagem, por Marden Machado




O MUNDO GLOBALIZADO DO CINEMA DE ESPIONAGEM

Assim como a Segunda Guerra Mundial gerou para o cinema uma infinidade de filmes tendo os nazistas como vilões, a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética (atual Rússia), ajudou a criar o que conhecemos hoje como “filme de espionagem”.

Esse tipo de filme tem um formato próprio, que, apesar de guardar semelhanças com os filmes de ação e de suspense, destaca-se por conta de alguns elementos bem específicos: tramas intricadas e cheias de reviravoltas, locações em diferentes partes do mundo, um agente/herói que luta quase sempre sozinho contra o inimigo e, este inimigo costuma representar, invariavelmente, uma ameaça global.



Se analisarmos a produção cinematográfica dos anos 1940, encontraremos em O Terceiro Homem, de 1949, filme dirigido por Carol Reed, estrelado por Orson Welles e com roteiro de Graham Greene, um dos primeiros exemplares do gênero. Da mesma forma, dois filmes de Alfred Hitchcock realizados nos anos 1950 também são ilustrativos desse gênero em formação: O Homem Que Sabia Demais, de 1956 e, principalmente, Intriga Internacional, de 1959.

Ao longo da década de 50 do século passado, o cinema americano utilizou a tensão provocada pela Guerra Fria em filmes de ficção-científica que, através de metáforas, transformavam a “ameaça comunista” em “invasão alienígena”.

O cinema de espionagem como nós o conhecemos hoje surge no início dos anos 1960, mais precisamente em 1962, com o lançamento de dois filmes: Sob o Domínio do Mal, de John Frankenheimer e o primeiro filme de James Bond, 007 Contra o Satânico Dr. No, de Terence Young.



Criado pelo escritor Ian Fleming, James Bond é um agente do Serviço Secreto britânico e o “00” antes do número “7” indica que ele tem licença para matar. A personagem foi interpretada no cinema por sete atores: Sean Connery, George Lanzeby, David Niven (em uma comédia que não é considerada parte da cronologia oficial), Roger Moore, Timothy Dalton, Pierce Brosnan e Daniel Craig.

Outro filme importante dos primeiros anos do gênero é O Espião Que Saiu do Frio, de Martin Ritt, realizado em 1965 e baseado em um livro de John Le Carré, um escritor que teve quase todos seus livros de espionagem adaptados para o cinema, da mesma forma que outros autores como Graham Greene, Frederick Forsythe, James Grady, Robert Ludlum e Tom Clancy. Principalmente durante os anos de 1970 e a primeira metade dos anos 1980, em filmes como: O Dia do Chacal (1973 – Fred Zinnemann), O Dossiê Odessa (1974 – Ronald Neame), Três Dias do Condor (1975 – Sydney Pollack) e O Documento Holcroft (1985 – John Frankenheimer).

Com o fim da Guerra Fria 20 anos atrás, Hollywood perde seu principal vilão e o gênero perde o rumo. Alguns poucos filmes são produzidos, mas, não empolgam como antigamente. Três exemplos: Três exemplos: Em 1990, A Casa da Rússia, de Fred Schepisi com Sean Connery e Michele Pfeiffer no elenco; ainda no mesmo ano, Caçada ao Outubro Vermelho, de John McTiernan com Sean Connery e Alec Baldwin; e em 1991, Companhia de Assassinos, com direção de Nicholas Meyer estrelado por Gene Hackman e Mikhail Baryshnikov.



Em todos eles temos novamente agentes da CIA, da KGB e de outras siglas em ação. Os elementos clássicos do gênero ainda estavam presentes, mas, o mundo havia mudado e a situação perdura por toda a década de 1990.

Em 2001 são lançados dois filmes que conseguem chamar novamente a atenção para o gênero: O Alfaiate do Panamá, de John Boorman - estrelado por Pierce Brosnan e Geoffrey Rush e Jogo de Espiões, de Tony Scott, com Robert Redford e Brad Pitt. Mas é somente a partir de 2002, com o lançamento de A Identidade Bourne, dirigido por Doug Liman, estrelado por Matt Damon e com roteiro de Tony Gilroy (inspirado na personagem criada por Robert Ludlum) que o gênero se reinventa.

Jason Bourne é um agente secreto desmemoriado que luta contra todos que aparecem em sua frente e tem um único objetivo: descobrir quem ele é realmente. Apesar de o primeiro filme da trilogia Bourne ser muito bom, o mais interessante é que é a partir do segundo, A Supremacia Bourne, de 2004, e principalmente do terceiro, O Ultimato Bourne, de 2007, ambos dirigidos por Paul Greengrass, que o cinema de espionagem ganha um novo fôlego definitivo.



Em 2005, o brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus e Ensaio Sobre a Cegueira) recusa um convite para dirigir um filme do agente 007 e aceita ir para a África realizar O Jardineiro Fiel, adaptação de mais um livro de John Le Carré e que tem como vilões a indústria farmacêutica e os governos do Quênia e da Inglaterra.

Chegamos então ao filme do alemão Tom Tykwer, Trama Internacional. O inimigo agora é um grande banco, o BCCI, que estaria por trás de operações ilegais envolvendo a compra de armas. O agente da Interpol Louis Sallinger, vivido por Clive Owen (que por sinal esteve recentemente em um outro filme, Duplicidade, que “brinca” com os clichês dos filmes de espionagem) é um obcecado em desmascarar as operações do banco.



Os elementos tradicionais do gênero estão presentes em Trama Internacional, de 2009. A ação começa em Berlim, depois passa por Nova York, Lyon, Luxemburgo e termina em Istambul. É possível perceber no filme de Tykwer influências hitchcockianas, porém, a principal delas vem da trilogia Bourne.

O próprio James Bond, por influência do novo ritmo imposto pelos filmes de Jason Bourne, foi inteiramente repaginado em Cassino Royale, de 2006, dirigido por Martin Campbell e que marcou a estréia de Daniel Craig na pele de 007. A nova postura do agente com licença para matar foi mantida em 007 - Quantum of Solace, dirigido em 2008 por Marc Forster, e conseguiu se renovar por completo em 2012, com 007 – Operação Skyfall, de Sam Mendes, feito para celebrar os 50 anos da personagem.



E fechando o lote de filmes, uma boa surpresa terminou surgindo de uma mistura improvável. Poderia um diretor sueco dirigir uma trama tipicamente inglesa? Isso aconteceu em 2011, quando Tomas Alfredson realizou O Espião Que Sabia Demais, adaptado da obra de John Le Carré.

A história se passa no início dos anos 1970, ainda no auge da Guerra Fria entre americanos e soviéticos. George Smiley (Gary Oldman), um ex-agente do alto escalão do Serviço Secreto Britânico, é convocado para descobrir a identidade do agente duplo que vem passando informações para o inimigo. Se estabelece então um jogo de gato e rato, cheio de suspeitos e de pistas falsas. Alfredson, fiel ao estilo dos filmes realizados na época em que se passa a trama, imprime uma cor chapada e de aparência velha, o que ajuda sobremaneira a entrarmos no clima proposto pela investigação de Smiley.

Enquanto existirem superpotências, ameaças nucleares e ações terroristas, haverá sempre boas histórias a serem contadas e espiões e agentes secretos, duplos ou não, para fazerem parte delas.

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Marden Machado
Especial para Quadro por Quadro