Nem toda animação que carrega o selo da Disney/Pixar nasce para ser clássica, mas é admirável como, na maioria das vezes, ela chega muito perto disso. Cara de Um, Focinho do Outro talvez não revolucione o gênero, mas entende exatamente quais valores quer reforçar e faz isso com convicção.
Mabel é o tipo de protagonista que não passa despercebida. Aos 19 anos, ela não apenas diz o que pensa, ela grita! E sustenta. Sua rivalidade com o prefeito Jerry, o prefeito que é mais preocupada com a reeleição do que com preservação ambiental, é o ponto de partida para uma narrativa que poderia ser simples, mas escolhe ganhar camadas. Quando vê o espaço natural que tanto ama ameaçado, Mabel encontra na ciência, e em uma cientista e professora universitária nada convencional, uma solução ousada: incorporar um castor biônico para se comunicar diretamente com os animais afetados. O plano que parecia improvável acaba funcionando até bem demais.

A grande força do filme está nos detalhes. Nas cenas que passam quase muito rápido e diálogos que dizem muito. A representatividade feminina não é um discurso: é presença. Mulheres jovens lideram, pesquisam, erram, tentam de novo. São cientistas, mães, avós, amigas. São complexas. E isso faz diferença.
Depois vêm os valores, aqueles que nunca envelhecem. A capacidade de se colocar no lugar do outro, de entender que cidade e natureza não são locais isolados, mas organismos conectados. Que humanos e animais dividem mais do que espaço, dividem o futuro. O roteiro aposta nessa ideia de equilíbrio como algo urgente, mas sem soar didático demais. Ideia que, de acordo com o diretor Daniel Chong, foi constantemente aperfeiçoada para não ficar “muito ecológica”, ou seja, fora da medida.

E então há o inesperado. Algumas sequências flertam com o estranho, com o desconforto. Certas cenas carregam um leve tom “creepy” que surpreende dentro de uma animação familiar. Mas talvez seja justamente aí que o filme respire. Nem tudo precisa ser completamente “seguro para as crianças”.
Cara de Um, Focinho do Outro pode não ser um filme diferentão, mas é atento. É daqueles que pedem que o espectador realmente olhe, quadro por quadro. Porque, às vezes, o que transforma não é o grande gesto, mas o detalhe. Importante: fique de olho na cena da borboleta.





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