Thunderbolts* chega como uma tentativa da Marvel de reorganizar a casa depois de alguns momentos de desgaste narrativo e saturação de conteúdos do estúdio. A ideia de reunir um grupo de desajustados e personagens esquecidos do seu universo em uma missão suicida pode parecer, à primeira vista, uma jogada desesperada — e talvez seja mesmo —, mas o resultado é, surpreendentemente, um dos filmes mais autênticos da fase recente do estúdio. Ainda que sua proposta oscile entre a autodepreciação cômica e o drama psicológico, Thunderbolts* encontra momentos de brilho ao abraçar o caos interno de seus personagens.
A força do filme está menos em sua trama e mais na química entre os protagonistas. Yelena, John Walker, Fantasma, Treinadora, Guardião Vermelho e Bucky Barnes são figuras que carregam cicatrizes profundas, não apenas físicas, mas emocionais. É justamente nesse terreno instável que a narrativa se estabelece: são pessoas quebradas tentando agir em nome de causas questionáveis — e, ocasionalmente, encontrando uma espécie de redenção improvisada. A condução de Jake Schreier aposta no humor como ferramenta de aproximação, sem mascarar o peso dos traumas que cada um carrega.

Ainda assim, Thunderbolts* exige um certo nível de comprometimento do espectador. Não há muito esforço em contextualizar os personagens para quem não acompanha religiosamente os filmes do estúdio, o que pode alienar parte do público. Para os iniciados, há recompensas: pequenos arcos são retomados, feridas abertas em filmes e séries anteriores voltam à tona, e o universo se expande com a introdução de novas peças, como o misterioso Bob Reynolds — uma presença que traz um elemento sombrio e quase sobrenatural à trama.
A presença de Julia Louis-Dreyfus como Valentina continua sendo um dos trunfos do momento atual do universo Marvel, e aqui ela ganha mais espaço, cercada por uma atmosfera de burocracia venenosa e manipulação. A dinâmica entre ela e sua assistente Mel injeta doses de sarcasmo que lembram o clima mais leve de Guardiões da Galáxia, mas sempre com um pé na crítica social — especialmente quando o governo literalmente coloca seus “soldados descartáveis” para se eliminarem mutuamente.
O ritmo do filme é desigual: a primeira metade tenta equilibrar ação com piadas e exposição emocional, enquanto a segunda mergulha num suspense mais sombrio, quase como um thriller sobrenatural dos anos 1990. Essa mudança de tom pode parecer brusca, mas acaba funcionando por refletir o estado mental dos próprios personagens — todos em conflito entre seguir ordens e se reconectar com algum resquício de humanidade.

A escolha de Florence Pugh como âncora emocional do longa é certeira. Yelena nunca foi das personagens mais fascinantes do estúdio, mas Pugh lhe dá camadas, tornando sua crise de identidade crível e relacionável. Em vez de salvar o mundo com moralidade heroica, ela busca apenas se encontrar em meio a escombros emocionais. É um contraste bem-vindo diante da grandiosidade vazia que marcou alguns filmes anteriores do estúdio.
Thunderbolts* não tem a pretensão de recuperar o fôlego épico dos Vingadores, mas se sai melhor quando aceita ser um filme menor e mais centrado nos indivíduos do que nos universos. O título com asterisco é mais do que uma brincadeira — é quase uma confissão de que o estúdio precisava de uma pausa, uma reflexão e, acima de tudo, coragem para experimentar. E se nem todos os elementos funcionam, pelo menos há aqui uma tentativa genuína de fazer algo diferente. Para um estúdio acostumado à fórmula, isso já é um avanço.


































































































































